Outra vez aquela pergunta

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Ontem fotografei: 1) uma cena de rua na marginal de Matosinhos; 2) surfistas; 3) um jogo de andebol de praia feminino (jogado por raparigas que, digamos, eram muito aptas fisicamente); 4) um avião das diversões da Rotunda da Boavista; 5) um boneco de matraquilhos; 6) outra cena de rua; 7) uma sala do Palácio das Artes. As minhas ambivalências fotográficas resultam bem patentes desta listagem. Repito que tudo isto foi num só dia!

Isto demonstra que ainda estou muito longe de saber responder àquela velha pergunta que toda a gente faz: qual é o teu tipo de fotografia preferido? Durante anos senti-me compelido a encontrar rapidamente uma resposta: queria especializar-me num género de fotografia para poder ter uma resposta simples e rápida, em lugar de aborrecer o inquiridor com um discurso longuíssimo que, no fundo, não é resposta nenhuma. Nunca desenvolvi tendências psicóticas por causa desta minha indecisão, mas por mais que uma vez senti que um determinado tipo de fotografia era aquele a que me queria dedicar – apenas para o abandonar rapidamente e interessar-me por outro qualquer. Claro que, se me fizerem hoje essa pergunta, vou provavelmente continuar a ser percorrido por suores frios e balbuciar qualquer coisa que quem formulou a pergunta não terá paciência para ouvir.

Ou talvez não. A minha resposta para aquela pergunta pode ser bem mais simples: não tenho um tipo de fotografia favorito. Não me parece haver mal nenhum nisto. Consigo ver motivos interessantes, que se adequam à minha linguagem estética, em muita coisa – desde paisagens até pessoas. A necessidade de responder à pergunta até pode subsistir na minha mente, mas não vejo razão nenhuma para abandonar a forma como fotografo em favor de um só tema. Não quero ser reputado como fotógrafo disto ou fotógrafo daquilo, porque nem sequer quero ser reputado como fotógrafo: quero fotografar para me exprimir e não vejo que me divertisse mais se só fizesse um determinado tipo de fotografia. Pelo contrário.

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É verdade que a especialização tem benefícios: o trabalho do fotógrafo será muito mais consistente, a sua reputação vai ter benefícios e a fotografia deste autor poderá melhorar grandemente por se dedicar a um só estilo. Como dizia o meu sensei de Karaté Shotokan quando nos obrigava a fazer séries inconcebivelmente longas de movimentos, «a repetição traz a perfeição». Fotografar só um tema cria hábitos e disciplinas que favorecem o desenvolvimento da técnica e da expressão de uma maneira que está vedada aos diletantes. O diletantismo é uma via perigosa, porque cada tema implica uma série de estratégias, técnicas e opções que não são intermutáveis: fotografar à noite tem requisitos muito diferentes da fotografia de rua e esta diverge, nas suas exigências, da de paisagem. Deste modo, o diletante nunca chega a criar uma linguagem própria porque não se dá tempo para a desenvolver: se alguém está constantemente a mudar de tipo de fotografia, o mais certo é que nunca chegue a ser verdadeiramente bom em nenhum.

No meu caso, estas considerações não importam muito. Eu não quero especializar-me: quero apenas converter percepções em imagens. De pouco me importa que sejam pessoas, automóveis, interiores ou paisagens: o meu interesse é traduzir o que vejo numa fotografia. Numa imagem que seja satisfatória do ponto de vista estético e gráfico, mas também que transmita algo sobre mim e sobre a maneira como vejo as coisas. De resto, penso que me saturaria rapidamente se fizesse sempre a mesma coisa – mesmo se o tipo de fotografia escolhido implicasse sempre encontrar situações fotográficas novas ou renovadas, como a «fotografia de rua», cansar-me-ia muito rapidamente antes de atingir um padrão de qualidade aceitável e um estilo próprio.

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Acima de tudo, quero que a fotografia me divirta. E aqui encontro uma nova incompatibilidade, porque fotografar sempre as mesmas coisas não me divertiria. O mais próximo que estive da especialização foi ao fotografar automóveis, mas hoje já nem sequer os procuro. Se encontrar um automóvel (ou mota) interessante, fotografo-o, mas não com o intuito de ser o maior fotógrafo de automóveis da actualidade (que, de resto, nunca poderia ser por me faltar a qualidade de «fotógrafo»). Caminhar horas à procura de automóveis interessantes (não há assim tantos) foi divertido, mas só até certo momento. Depois cansei-me e procurei outras coisas. Como, de resto, acontece com quase todos os temas: canso-me facilmente. Por vezes volto a eles, mas preciso de fazer pausas e fotografar outras coisas. Isto costumava atormentar-me, mas agora não. Se calhar o ecletismo é uma característica minha – ou então fui eu que ainda não descobri a resposta àquela pergunta.

M. V. M.

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