A minha pior experiência fotográfica de sempre

Na Sexta-feira tive uma experiência fotográfica que não quero repetir. Fui apanhar um pouco de ar fresco depois do jantar e, a certa altura, fui abordado por um sujeito gorducho em quem já tinha reparado porque estava a fotografar a mulher – ou namorada, ou amante: não me meto na vida das pessoas! – junto da estátua O Mensageiro, de Irene Vilar, que está erigida no início da Rua de Sobreiras, a caminho da Foz do Douro. Não consigo imaginar um lugar mais piroso para fotografias românticas, mas tudo bem: afinal de contas, como vim a descobrir mais tarde, o casal fazia-se deslocar a bordo de um Opel Astra descapotável cor-de-laranja metalizado. Podia escrever que está tudo dito, mas há mais. E pior.

Pois bem: o gorducho estava a fotografar a cara-metade com um phablet. Para quem não sabe, phablet é um neologismo absurdo formado pelas palavras phone e tablet. É, deste modo, um telemóvel gigantesco ou um tablet minúsculo, um objecto em plena crise de identidade. Ah! – mas tem uma câmara. Ou melhor: tem uma lente, um sensor e um obturador. Ao que parece, estes são os elementos que compõem uma câmara. Vamos, deste modo, dar como assente que aquele aparelho, que é demasiado grande para ser usado como um telemóvel (como se pode ver na imagem acima) e demasiado pequeno para operar como um computador, tem uma câmara. Ora, o anafadinho, que ainda não estava consolado de fotografias foleiras, queria ser fotografado com a sua mais-que-tudo junto à estátua de Irene Vilar; perguntou-me se eu me importava de fotografá-los e estendeu-me o phablet, um Samsung cujo modelo não me dei ao trabalho de indagar. E eu, estupidamente, aceitei.

Primeiro: aquele objecto é demasiado desajeitado para fotografar. É demasiado grande e demasiado fino. As DSLR são ainda maiores e são muito mais pesadas, mas são também ergonómicas. Já que menciono a ergonomia, a daquela espécie de telha negra com um ecrã é simplesmente inexistente. Ao contrário de um telemóvel, tem de ser segurada com ambas as mãos e uma tem de se libertar, a dado momento, para accionar o disparo, cujo comando fica no ecrã touchscreen, a uma distância cientificamente estudada para tornar o disparo tudo menos prático.

Que dizer do ecrã? Não compreendo como pôde haver gente a queixar-se da resolução do ecrã da minha E-P1: o ecrã deste phablet, além da fraquíssima resolução, tem um problema crónico no arrastamento da imagem. É como se não apreciasse ser movido e quisesse que, uma vez fixada a imagem num objecto, este devesse ficar na mesma posição para sempre. Há um atraso no movimento que é completamente low-res. E o obturador não faz barulho: só se sabe que houve o disparo porque um rectângulozinho se mexe no ecrã. Além de ser inacreditavelmente lento, como seria mais ou menos de esperar de um aparelho destes.

Numa palavra – foi a experiência fotográfica mais desagradável da minha vida. Os motivos eram péssimos, o enquadramento foleiro até dizer chega e o equipamento… Sinceramente, podem chamar-me pedante, arrogante, ou o que quiserem, mas tive vontade de, ao devolver o phablet ao gorducho, dizer-lhe: «compre uma câmara a sério», mas não o fiz porque não me pareceu que ele merecesse ter uma câmara a sério. Um proprietário de um Opel Astra descapotável cor-de-laranja metalizado e de um phablet devia ser extraditado para… oh, espera lá, afinal não: está perfeitamente bem em Portugal.

Eu não compreendo como pode haver pessoas que fotografem com uma coisa daquelas, e menos ainda que gostem de o fazer. Eu sei que a maioria das pessoas não tem qualquer interesse artístico na fotografia – há muito tempo que esta realidade deixou de ser traumática para mim – e que há pessoas que tudo o que pretendem é uma imagem que as possa divertir, sem preocupações com a qualidade. E há também o factor quem não tem cão caça com gato. Tudo bem. Mas aquele objecto é a coisa mais desagradável, mais contra natura que eu conheço para fotografar. Tudo, na experiência de fotografar com um phablet, é repulsivo, desde o arrastamento da imagem no ecrã até ao atraso no disparo. Há uma falta completa de envolvimento com a fotografia, i. e. com o acto físico de fotografar.

Não quero referir-me à qualidade da imagem do phablet porque vou acreditar que aquela coisa horrivelmente subexposta e com cores falhadas que vi é consequência da falta de qualidade do ecrã e não traduz a qualidade da fotografia produzida. Contudo, uma lente de plástico, um sensor minúsculo e 5 MP de resolução não me fazem esperar nada de bom. O mais estranho, porém, é haver websites de material fotográfico que anteriormente eram de boa reputação a publicar ensaios destes aparelhos como se fossem câmaras fotográficas. Não são, evidentemente. Nem nunca serão. Se me disserem que aquilo é o futuro da fotografia, talvez tenha chegado o tempo de ir pensando noutro hobby. Porque eu não quero fotografar com um phablet. Prefiro não fotografar de todo. Eu não quero ter de fotografar com um aparelho desajeitado que tem um ecrã risível, dificuldades na focagem, uma única distância focal e sobre o qual não tenho qualquer tipo de controlo. E nem sequer vou mencionar a qualidade da imagem, que poderá ser suficiente para muitos, mas não para mim.

Tenham paciência, mas se aquilo é o futuro da fotografia, prefiro não participar nele. Eu necessito de retirar prazer do manuseio de uma câmara quando fotografo: isto torna o acto de fotografar mais divertido. E regular a exposição é um desafio intelectual de que não posso de todo em todo prescindir. Deste modo, é-me difícil perceber por que há gente que fotografa com um phablet. Posso compreender quem fotografa com um iPhone, mas aquilo é simplesmente grotesco.
M. V. M.

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