Balzac, câmaras e eu

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Consta que Honoré de Balzac era um comilão. Diz-se que, nos tempos de privação, desenhava pratos num papel à sua frente e escrevia neles os nomes das suas iguarias favoritas. Ao que parece, nesses dias de penúria, comia pão seco enquanto lia receitas de culinária, assim ludibriando a fome e satisfazendo ilusoriamente a sua gula.

Eu não passo fome de câmaras, mas, das duas que tenho, uma é como um prato frugal de peixe e a outra assemelha-se a um menu vegetariano – saudável, substancial, mas que nem sempre sacia os sentidos (embora sacie o estômago). Por vezes, quando dou por mim a desejar ter outras câmaras, ando pela internet a saciar os olhos e a mente com informação sobre outras máquinas fotográficas. Chego até a fotografar como se tivesse outra câmara que não fosse a minha. Fotografo com a OM como se fosse uma Toyo 810 Mk II. É o meu equivalente fotográfico das fantasias gastronómicas de Balzac.

Então com que sonha o M. V. M. nos momentos de devaneio equipamental? Maioritariamente, com câmaras de película. Quando se usam máquinas fotográficas a sério, o digital parece resolutamente pechisbeque. Contudo, o seu carácter prático e a possibilidade de trabalhar ficheiros Raw não deixam de ser atraentes. A única câmara digital que vale a pena fantasiar é a Nikon Df; ainda há pouco escrevi um texto sobre ela, pelo que não me vou alongar – excepto para referir que replicaria as distâncias focais que uso com a OM: 28mm, 50mm e 135mm. Se há algo com que acertei em cheio até hoje, foi na escolha destas distâncias focais tradicionais. São tudo quanto é necessário.

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Quanto ao formato 35mm, estamos conversados. A única dúvida é se me interessaria manter a Olympus OM-2n se tivesse uma Nikon Df. Só a prática me traria a resposta. O que é certo é que não me ficaria por aqui. Uma câmara que já preencheu os meus devaneios é a Rolleiflex. É caríssima e tem aqueles problemas da paralaxe, da imagem invertida no plano horizontal que se vê no visor e dos rolos de apenas uma dúzia de exposições, mas é preciso ver uma ampliação de um negativo exposto por uma destas câmaras para acreditar na resolução e na portentosa profundidade de campo de que as TLR são capazes. E são lindas, o que, não sendo o mais importante, conta muito.

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O mesmo se diga quanto às câmaras que mais me têm interessado ultimamente: as Fuji de telémetro de médio formato. O facto de saber que a GW690 6×9, além de custar uma pequena fortuna, apenas produz sete fotogramas por rolo, fez com que o meu entusiasmo arrefecesse até atingir o tipo de temperaturas que normalmente se observam no norte da Lapónia, mas seria uma câmara que me traria imensa satisfação: além de ter uma qualidade de imagem fabulosa, é incrivelmente simples de usar: a focagem é fácil e a lente é fixa (mas muito boa), o que, se em parte lhe rouba versatilidade, tem a vantagem de ser uma lente de 80mm, que nas câmaras de médio formato corresponde à perspectiva da visão humana (tal como as 50mm no formato dito full frame). Como faço 70% das minhas fotografias com uma lente standard, não me ia decerto dar mal com esta câmara.

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E que dizer do grande formato? Estas câmaras são enormes, caras, complicadas de montar (mas não de usar, ao que parece) e não usam rolos: se me queixei por a Fuji 690 só produzir sete fotogramas por rolo, estas câmaras não usam rolos e apenas produzem uma exposição! Mas basta olhar, ainda que superficialmente, para uma fotografia de Edgar Martins para perceber que estas são as rainhas das câmaras. Não quero morrer sem, pelo menos, experimentar uma.

É possivel que tenham reparado na ausência de duas marcas nesta pequena lista de câmaras ideiais: a Leica e a Olympus. Claro que uma Leica MP me deixaria imensamente satisfeito; se tivesse uma fortuna para gastar em câmaras, certamente teria uma, mas não seria uma prioridade. Aliás, só consideraria as câmaras a que aludi se fizesse da fotografia profissão (o que não me impede de sonhar acordado com elas). Nenhuma das Leicas serviria esse propósito. Quanto à Olympus, é muito simples: não há nenhuma de médio ou grande formato, com excepção de TLRs fabricadas nos anos 50 que devem ser impossíveis de encontrar (ou, se houver alguma à venda, deve custar o mesmo que uma quinta no Douro).

Agora que partilhei as minhas fantasias, deixem-me voltar para os desenhos e para o pão seco…

M. V. M.

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