Por que não faço retrato urbano

groucho marxQuem viu o Porto há dez anos e quem o vê agora! Uma cidade soturna, que induzia medo em quem a percorria de noite, transformou-se, ao longo do tempo, numa outra cheia de vida e animação. Lembro-me bem – não foi assim há tanto tempo – de quando algumas pessoas se recusavam a percorrer certas ruas da Baixa com medo dos assaltantes. Agora o único medo justificável é o de sermos espezinhados por um grupo de backpackers japoneses ao passar à porta da Livraria Lello.

Com efeito, a cidade mudou muito. Deixou de ser reservada aos nativos e começou a acolher estrangeiros, que trouxeram consigo hábitos e generalizaram costumes – como a movida que alastrou da Rua Galeria de Paris para toda a Baixa – que eram apenas praticados por grupos pequenos de portuenses. Embora ainda não seja totalmente cosmopolita, o Porto já deixou de ser uma aldeia gigante há alguns anos.

Este desenvolvimento fez com que as pessoas visíveis no Porto deixassem de ser uma massa mais ou menos homogénea de nativos e agora seja possível ver espécimes da mais variada ordem: temos reminiscentes do Punk, emos, rastas, surfistas, rockers – numa palavra, toda a espécie de tribos urbanas de que nos consigamos lembrar. O Porto está a tornar-se numa cidade heterogénea e o portuense dos estereótipos vai ficando cada vez mais confinado a bairros, visto pelos turistas e por muitos nativos como uma curiosidade (este portuense estereotípico apenas é receptivo às influências do futebol e das telenovelas: veste à chunga, depila-se, faz-se tatuar e usa cortes de cabelo ridículos).

Isto significa que cada vez se vêem mais pessoas interessantes na cidade. No Sábado, depois de mais uma visita à Câmaras & Companhia, andei um pouco pela zona a que se chama, genericamente, Cordoaria. Na Rua de S. Filipe de Nery (ou «Senhor Filipe de Nery», como lhe chama o Google Maps com o seu infinito humor…), mesmo a chegar à nova galeria comercial que atravessa a Praça de Lisboa, passei por um grupo de cinco ou seis jovens, dentre os quais se destacava uma rapariga dos seus 19 ou 20 anos. Digo que se «destacava» com plena propriedade, porque a rapariga distinguia-se dos demais por ter o cabelo pintado de azul. O que era curioso, porém, é que o fazia com a maior naturalidade, como se já tivesse nascido com aquela cor esplêndida no cabelo: as suas roupas eram razoavelmente discretas, não sendo nenhum manifesto, nem a rapariga sobressaía pelo seu comportamento. Não era particularmente bela, mas estava muito longe de ser feia: era o que se pode chamar uma miúda gira, uma rapariga cuja única singularidade era ter o cabelo pintado de azul da cor do céu de uma manhã bonita.

Depois de hesitar um pouco, perguntei-lhe se podia fotografá-la. Ela acedeu, sem me perguntar para que era e sem as desconfianças ridículas que por vezes encontro: simplesmente aceitou, com um sorriso bonito e como se alguém querer fotografá-la fosse a coisa mais natural do mundo. Sem medos, sem reservas, sem objecções. Os medos, reservas e objecções eram todos meus. Vou explicar porquê:

Este género de fotografia é praticado por alguém que só encontrei uma vez em pessoa, mas a quem posso chamar amigo. É alguém que anda pelas ruas à procura de espécimes urbanos interessantes e os retrata. Dedica-se quase exclusivamente a este tipo de retrato urbano e fá-lo muito bem. O nome dele é Ricardo Porto, mas esconde-se sob o pseudónimo «Groucho Marx» (os leitores que pensavam que a fotografia que ilustra o texto não fazia qualquer sentido podem compreender agora a sua inclusão). As minhas dúvidas não nascem do receio de ser tomado por um imitador: estou certo que, se ler isto – o que vai certamente acontecer, pois é um dos leitores mais assíduos do Número f/ –, o Groucho Marx vai achar esta atitude um disparate; poderia até comentar qualquer coisa como «fotografa à vontade!». Não o faço porque este é o género de fotografia dele. Pertence-lhe. Respeito esta sua exclusividade e não quero intrometer-me. Foi ele o primeiro a quem vi estes retratos: na minha mente, só ele tem o direito de os fazer. Merece-o, porque a maioria das fotografias que todos os dias publica no seu blogue e no Facebook são excelentes: invariavelmente interessantes e demonstrativas da fauna urbana do Porto.

É por este motivo que me abstenho de fazer fotografias como estas. Já há quem o faça – e melhor do que eu o faria. Contudo, aquele cabelo azul era impossível de resistir para quem anda com uma câmara na mão e tem olho para estas coisas. Por uma vez, usurpei o exclusivo do Groucho Marx. Mais tarde os leitores verão se valeu a pena, porque o retrato foi feito com a OM-2 e ainda há que revelar e digitalizar o rolo antes de ver a fotografia, mas o certo é que foi mais forte do que eu.

M. V. M.

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3 thoughts on “Por que não faço retrato urbano”

  1. Prezado Macedo,
    não retire seus posts técnicos, lembro-me ter sido justamente através de um post técnico que fiquei a conhecer o seu blog, e já nem lembro mais o titulo. Ao ler este post não pude deixar de lembar disso, são posts deliciosos como esse que me fizeram tornar um assíduo leitor deste sítio, embora não seja adepto à fotografia convencional, fico muito à vontade aqui, porque sei compreende-lo.
    abs,
    Adriano Schultz de Salvador-Ba, Brasil

  2. ah ah ah e já agora nao uses groucho marx que também é meu, LOL.

    faz-me lembrar uns fotografos de fotografia de rua que vi ficarem mt chateados por outros irem tirar fotografias aos mesmos sitios onde eles fizeram as deles…

    mostra mas é lá a miuda, que par amim nao há coutadas em lado nenhum muito menos em hobbies :)

    Groucho, aka Ricardo, aka… :)

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