Acessórios

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Não costumo dar grande importância aos acessórios. «Acessório» é, como se sabe, o antónimo de «essencial», pelo que, quando discutimos certos artigos fotográficos, estamos de facto a perorar sobre coisas que não são importantes. Salvo quando o são. Porque há acessórios que só se chamam assim à falta de melhor expressão, porque de acessório não têm nada. O cabo disparador é um deles.

É impossível fazer longas exposições com uma câmara de película sem um cabo disparador. Aqui começa e termina toda a importância deste acessório. A um cabo disparador, tudo o que se pede é que funcione. Nada mais. Não é por ser bom ou mau que vai tornar o seu proprietário um fotógrafo melhor ou pior; se não tiver qualidade suficiente – i. e. se não funcionar convenientemente –, pode, quando muito, fazer perder uma ou outra oportunidade de fotografar. Um cabo disparador não tem necessariamente de ser caro, o que, felizmente, faz com que este artigo não caia na cobiça dos vendedores de banha da cobra que montam uma lente num adaptador de €10 e o vendem por €500. É um tipo de acessório que se compra sem que seja dada prioridade à marca do seu fabricante: este é um aspecto que não interessa para nada, porque o importante é que funcione. (Era o que faltava haver discussões nos foros sobre se os cabos Y são melhores que os X e porquê!)

No meu caso, estou a referir-me a um cabo disparador da época analógica, daqueles que se aparafusam ao botão de disparo para premir remotamente o botão do obturador. Este foi o último acessório a integrar a minha lista de material fotográfico. Não há nada mais deliciosamente anacrónico que um cabo disparador como este: além de toda a operação ser física – não há transmissão de um impulso eléctrico, como nos disparadores electrónicos, mas uma força que se exerce sobre um botão –, tem ainda a curiosidade de a sua operação se assimilar a um gesto medicinal: de facto, é como se se aplicasse uma injecção. O movimento é o mesmo: em ambos os casos, aplica-se pressão com o polegar segurando o objecto – a seringa ou o cabo – entre o dedo indicador e o médio.

O cabo disparador para câmaras analógicas é um dispositivo mecânico de uma simplicidade extrema: é um cabo de metal de cerca de 1,5 mm de diâmetro envolto numa manga flexível. Do lado superior tem um botão, que se prime como o êmbolo de uma seringa, e na outra extremidade há uma ponta rígida que vai accionar o obturador e uma secção enroscada que vai aparafusar no botão de disparo da câmara. A operação não podia ser mais simples: prende-se o cabo ao botão de disparo, carrega-se e já está.

Para que se usa o cabo disparador? Para exposições longas, com a câmara montada num tripé. Uma exposição pode ser considerada longa quando o seu valor é superior ao da distância focal da lente: se se usa uma lente de 50mm, é conveniente usar o tripé para fazer exposições mais longas que 1/60. Contudo, o uso do cabo só se justifica verdadeiramente quando se fotografa no modo Bulb, ao qual se recorre para exposições mais longas que 1/1. O objectivo é, evidentemente, obstar a que o tremor das mãos interfira com a nitidez da imagem ao transmitir vibrações à câmara durante a exposição. Ontem, na minha primeira experiência com um cabo disparador e a OM-2, não tive problemas de qualquer espécie. Não há qualquer dificuldade em usá-lo: é carregar e largar ao fim de certo tempo. não é um tema que tenha muito para contar.

O cabo disparador é apenas um acessório. Contudo, sem ele seria difícil fazer fotografias decentes com tempos de exposição muito longos. É um objecto anacrónico – hoje em dia usa-se o disparo remoto através de apps ou de dispositivos como os Phottix –, mas alguém me explica a razão por que não consigo parar de olhar para este cabozinho elegante, ou por que é tão fascinante fotografar com ele? Este cabo, de marca Prontor – um antigo fabricante de obturadores que agora se dedica ao fabrico de mecanismos de precisão e tecnologia médica –, que ostenta orgulhoso a informação Made in Germany, é um objectozinho cheio de charme que me permite ir mais longe na exploração das possibilidades da fotografia convencional.

Não, nem todos os acessórios são acessórios.

M. V. M.

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