Vendo Michael Haneke na noite de S. Pedro

Michael Haneke, Filmregisseur, Copyright www.peterrigaud.com

Ontem foi noite de foguetório: na Afurada, freguesia (agora unificada com Santa Marinha) separada da minha pelo Rio Douro, foi festa de S. Pedro. Como já tenho um cabo disparador para a minha OM-2 – escreverei sobre este objecto anacrónico um dia destes – e tenho um rolo a cores nas entranhas da câmara, ao que acresce o facto de o fogo de artifício ser visível da varanda das traseiras – como as festas populares já não me divertem, foi noite de ficar em casa –, estavam reunidas todas as condições para, finalmente, fazer fotografias de fogo de artifício.

Deu-se, porém, uma daquelas circunstâncias que me lembram que o meu fervor pela fotografia não é tão forte que prevaleça sobre tudo o resto. Ainda bem que é assim, porque confirma que não sou um obcecado nem um fanático (alerta de pleonasmo: um fanático é sempre um obcecado) da fotografia. A circunstância foi um filme que passou na RTP 2, intitulado Amor, do realizador austríaco Michael Haneke, cujo horário colidiu com o do foguetório.

Eu tenho um fraquinho por tudo o que vem da Áustria no que diz respeito a artes: talvez seja o país que mais contribuiu para o seu desenvolvimento. Na música, a lista de compositores é infindável: Haydn, Mozart, Bruckner, Mahler, Berg e Schoenberg são alguns dos compositores mais influentes da história. Até Beethoven e Brahms desenvolveram o grosso da sua criação em Viena. Na literatura, há Robert Musil, mas também Hugo von Hofmannstahl, Stefan Zweig e Elfriede Jelinek, cujo romance A Pianista serviu de guião para um filme de Michael Haneke com o mesmo título. Estes são apenas exemplos do que vem de bom do país que também produziu Hitler, Sigmund Freud e a pessoa mais (injustamente) odiada da Fórmula 1, o Dr. Helmut Marko.

Os filmes de Michael Haneke estão entre os melhores que vi ao longo de toda a minha vida. Embora eu não seja um cinéfilo, tenho um gosto especial por bons filmes. Gosto de cinema que me desafie a mente, que me faça meditar. Ver um blockbuster de acção produzido por Jerry Bruckheimer já foi do meu interesse, mas hoje suscita-me o mesmo tipo de entusiasmo que as festas populares. Tendo a preferir o cinema europeu ao americano, verificando que a maioria dos realizadores de Hollywood que atraem a minha atenção são de origem europeia, como Elia Kazan, Billy Wilder e muitos outros. Isto não significa que seja um zelota do cinema europeu – há filmes que, por quererem exprimir ideias que só os seus realizadores entendem, se tornam incrivelmente aborrecidos –, mas não deixa de ser verdade que o cinema europeu é de uma sofisticação a que os filmes americanos só muito raramente acedem.

No caso de Michael Haneke, os seus filmes são o produto de uma mente observadora e perspicaz que analisa – melhor: escalpeliza – o comportamento das suas personagens. A lente de Michael Heneke é penetrante, mostrando os processos subterrâneos da mente humana, aquilo que as pessoas não mostram à sociedade e assim passa despercebido da perscrutação pública, mas que existe. São filmes perturbadores e muitas vezes incómodos, mas serenos: não existe, em Michael Haneke, a deliberação do choque gratuito nem a nudez crua na análise das mentes que se vê em realizadores como Roman Polanski. Haneke mostra-nos personagens que, de tão plausíveis, podem ser verídicas, mas com vidas interiores insuspeitadas que podem, como no já referido A Pianista, perturbar pela sordidez. Simplesmente, Haneke não pretende induzir o espectador a formular juízos de valor: a sua visão é objectiva, não deixando nada por mostrar, mas honesta e verdadeira. Em O Laço Branco, vemos a torpitude escondida sob a placidez aparente de uma aldeia rural, com todos os vícios e perversões a serem revelados depois de uma série de crimes: o incesto, a traição conjugal, a crueldade inata das crianças, os recalcamentos causados por uma moral rígida e falsa – tudo está neste filme esplendoroso de Michael Haneke. Tal como a perversão sexual enquanto factor modificativo do comportamento em A Pianista, ou a fragilidade do amor conjugal, mesmo que este parecesse eterno, e a loucura no filme que vi ontem, Amor. Não tenho dúvidas em afirmar, embora os meus conhecimentos de cinema não sejam assim tão vastos, que Michael Haneke é um dos maiores realizadores do cinema contemporâneo.

Como conciliei, então, a minha vontade de experimentar a fotografia de fogo de artifício com a sede de ver Amor até ao fim? Simples – encurtei a sessão fotográfica ao estritamente necessário. Fiz três exposições com a câmara em modo Bulb e usando o cabo disparador, sem demorar mais de cinco minutos. Era imperativo que a interrupção da visualização de Amor fosse tão breve quanto possível. Como sempre acontece com os rolos, só vos posso narrar os resultados quando o rolo for revelado e digitalizado. Enquanto esperam pela narração dos resultados destas minhas experiências, façam um favor a vós mesmos e vejam filmes de Michael Haneke. Não é exactamente o tipo de cinema que se veja nos cinemas do Arrábida Shopping com um balde de pipocas ao colo, mas cada um dos filmes de Haneke é uma experiência irrepetível.

M. V. M.

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