Henri et moi

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Ontem inaugurou uma grande exposição de fotografia no Porto. Curiosamente, apesar de ter tido conhecimento dela há mais de uma semana, a inauguração varreu-se-me completamente. Só me lembrei dela por ter passado pela Avenida dos Aliados ontem à noite. Ia armado de tripé para fazer mais algumas fotografias nocturnas, agora que sei que sou capaz de usar as técnicas requeridas com sucesso. (Eu adoro fotografar à noite; é o melhor pretexto que conheço para vagabundear sozinho pelas ruas da cidade.)

De modo que, quando cheguei perto do entroncamento entre a Avenida dos Aliados e a Rua Ramalho Ortigão, ouvi um bom Jazz; um solo de vibrafone que me fez pensar que algum bar mais trendy estava a passar música de Milt Jackson e do seu Modern Jazz Quartet. Percorri mais alguns metros e cheguei à porta do Edifício AXA (o que me relembrou a minha irritação por o meu mediador de seguros não me ter entregue a carta verde e que o seguro caducava à meia-noite); alguém tocava um saxofone contralto, mas sem qualquer possibilidade de ser confundido com Cannonball Adderley. Só quando vi a agitação à porta do edifício me lembrei da exposição de Henri Cartier-Bresson, devidamente assinalada por um cartaz gigantesco concebido por um ignorante que pensa que «Cartier» é nome próprio (mas graficamente está bastante decente, pelo que não devo deixar que aquele pormenor interfira em demasia).

Subi. Muita gente. Não há qualquer dúvida que Henri Cartier-Bresson desperta muitas atenções: com excepção da mais pequena, que exibia as fotografias de maior notoriedade, as outras duas salas estavam apinhadas de gente. No entanto, aconteceu-me exactamente o mesmo que aquando da exposição de Rui Palha na Colorfoto, que relatei aqui: a urgência de fotografar sobrepôs-se à curiosidade de ver as fotografias desse gigante que foi Henri Cartier-Bresson. Saí sem ter visto metade das fotografias e ignorando completamente os outros eventos, entre os quais um concerto de Jazz (afinal não era uma gravação do Milt Jackson…), mas formulando perante mim mesmo a promessa de voltar – de preferência acompanhado, com tempo e sem o tripé.

A exposição de HC-B tem um nome pomposo: L’Imaginaire d’Aprés Nature. Quando leio ou ouço coisas destas, lembro-me sempre da passagem d’Os Maias em que Eça vitupera a nossa francofilia: tudo vem de França no paquete, incluindo a cultura. Não sou avesso à arte francesa – pelo contrário –, mas detesto aquelas pessoas que se imaginam imensamente cultas por saberem falar francês e papaguearem umas citações de André Breton. Mas neste caso a frase que dá o título à exposição é cunhada pelo próprio HC-B, pelo que me considero dispensado de mais críticas. Aliás, nada disto interessa: nem o cartaz em que «Cartier» surge como nome próprio, nem a sofisticação requentada do título da exposição, nem o saxofonista que não é nenhum Eric Dolphy. O que importa são as fotografias. Não conhecia muitas das que vi na exposição, mas senti um momento de comunhão maravilhosa com a obra de Henri Cartier-Bresson ao ver aquelas imagens que ora são surreais, ora documentais – mas sempre com um sentido estético que se aproxima da perfeição e um elemento de surpresa que torna cada fotografia diferente, fascinante e única. Francamente, não sei que mais pode este insecto escrever sobre Henri Cartier-Bresson. Chamar-lhe o pai da fotografia contemporânea é pouco, além de ser um lugar-comum intolerável. Cartier-Bresson foi o maior de sempre, a maior influência, aquele que todos reverenciam e com razão. Cartier-Bresson pegou no que André Kertesz e Walker Evans iniciaram e elevou-o a um nível tão alto que nenhum outro conseguiu atingir. Há uma fotografia antes e outra depois de Cartier-Bresson. E, pelo caminho, inventou a fotoreportagem e criou a Agência Magnum. Que mais há a dizer sobre ele?

Aparentemente, muito. Tanto que quase esqueci que a exposição de Cartier-Bresson não é a única coisa que está a acontecer no Edifício AXA: há também exposições colectivas – numa delas vão estar expostas fotografias de gente como António Pedrosa, Paulo Pimenta e Adriano Miranda (o cartaz refere-se a um «Adriano de Miranda», talvez para compensar da heresia cometida com o apelido Cartier-Bresson). E há outras actividades, como workshops gratuitos promovidos pelo Instituto Português de Fotografia.

Eu cá, se fosse a vós, dava um saltinho até à Avenida dos Aliados…

M. V. M.

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