O meu S. João

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Há muito tempo que o S. João não me diverte. Quando tinha catorze ou quinze anos – ou mesmo um pouco mais tarde –, sair à rua e fazer directas na noite de 23 para 24 de Junho era das coisas mais divertidas que podia conceber, mas esse tempo acabou há muito. O S. João deixou de ser divertido para mim: é certamente uma daquelas coisas da idade, porque, ao avaliar o comportamento das pessoas mais velhas na noite de S. João, sou forçado a concluir que poucas delas se divertem. Algumas parecem mesmo estar a fazer um frete aos catraios, tal a carga de má disposição que transportam consigo. Numa palavra: o S. João é para os adolescentes. As crianças ainda não viveram o suficiente para o compreenderem, os mais velhos já esgotaram toda a diversão que essa noite contém.

Contudo, a noite de S. João é uma daquelas que me faz sentir culpado por não me estar a divertir, pelo que sinto sempre uma compulsão para sair de casa – apenas para concluir que já não me interessa, que já não me divirto. Aborrecem-me a música pimba, a confusão e os martelos, mas a compulsão continua. Este ano decidi sair de casa e fazer algo diferente. Sim, adivinharam: fui fotografar o S. João.

Em boa hora o fiz. Algumas fotografias ficaram bastante satisfatórias, mas também serviram para provar que fotografar com rolos a cores à noite não é a melhor solução. E para finalmente perceber as deficiências cromáticas do Kodak Portra 160, que tem sido, até agora, o meu rolo a cores de eleição.

O que acontece, quando se fotografa de noite com um rolo a cores – ou, pelo menos, com o Portra 160 –, é o surgimento de tingimentos espúrios na imagem, sob a forma de matizes. A mais agressiva destas últimas é o ciano, que desvirtua azuis e verdes e torna frios os vermelhos e amarelos. A explicação é simples: os rolos a cores são, em regra, concebidos para reproduzir a temperatura da cor que é visível com luz do dia, pelo que existe sempre uma grande diferença entre o equilíbrio das cores que os olhos vêem e o que o negativo fixa. Para além do ciano, também as matizes verde, azul e magenta podem interferir nas cores, alterando-as de uma forma extremamente desagradável. No caso do Kodak Portra 160, o ciano é de longe a matiz mais agressiva, mas as restantes que acabei de referir também contribuem com a sua acção deletéria.

Se eu não digitalizasse os negativos e mandasse imprimir as fotografias, teria tido uma enorme decepção: os vermelhos surgem mortiços, com uma tonalidade próxima do violeta; os azuis tornam-se esverdeados; os verdes, que o Portra 160 tem dificuldade em reproduzir sob a luz do dia, ficam demasiado vibrantes; e os amarelos escurecem, adquirindo uma tonalidade antiquada e deveras desagradável. As fotografias, tal como me apareceram no computador depois de descarregadas, são péssimas: mortiças, com cores que não têm um mínimo de correspondência com a realidade, feias e, aparentemente, inaproveitáveis. Um desastre.

Contudo, como são digitalizações, há sempre a possibilidade de corrigir estas deficiências. Eu deixei há muito de ser purista e edito as digitalizações, beneficiando da excelência dos controlos HSL do DxO Optics Pro 8. As operações já se tornam rotineiras: a primeira coisa a fazer é retirar saturação aos cianos – mas não tanta que faça com que alguns azuis surjam deslavados. Isto resolve metade dos problemas cromáticos, mas ainda é possível fazer melhor. Para tratar os vermelhos, que o Kodak Portra 160 tem dificuldade em reproduzir mesmo à luz do dia, é necessário fazer algo que normalmente evito: acentuar a matiz. Deste modo o vermelho fica mais vivo e perde o tom arroxeado que lhe rouba vibração. Umas correcções no verde e no azul, e já está – mas não sem antes dar um pouco mais de vibração às cores no respectivo comando, para tornar a fotografia mais viva.

Claro que fotografar à noite com uma câmara analógica traz outro problema, que é a exposição. Este é um problema que se torna ainda mais sério quando se usa uma câmara que não tem medição pontual. Falhei duas fotografias por ter medido a exposição junto das partes mais luminosas de um motivo, tendo acontecido aquilo que já previra: as luzes ficaram correctamente expostas, mas o resto do motivo não se consegue discernir. Este é o risco de medir a exposição em situações difíceis nesta corda-bamba sem rede que é a fotografia convencional, mas o que é certo é que só falhei duas exposições. O que não é nada mau. Francamente, pensava ter falhado mais. Ainda bem que tal não aconteceu.

Como vêem, precisei de esperar até ao dia 27 de Junho para decidir se tive ou não uma boa noite de S. João…

M. V. M.

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