Mais sobre técnica

Ainda a propósito das técnicas fotográficas e da sua importância. Não me canso de repetir que o conhecimento e uso das técnicas é um auxiliar precioso da expressão. Tenho para mim que ver uma coisa que parece bonita, apontar a câmara e disparar não é suficiente para que as fotografias ganhem conteúdo artístico. Esse objecto pode até ser profundamente desinteressante sob o ponto de vista fotográfico, apesar de toda a sua beleza. Ou pode acontecer que seja interessante, mas que a fotografia falhe completamente por ser mal enquadrada, ter sido colhida a partir de um ponto de vista banal ou por existirem erros na exposição.

A técnica tem virtudes importantes. O seu emprego pode trazer interesse a motivos que passariam despercebidos a visão desatenta, mas convém não abusar deste potencial, sob pena de se fazerem fotografias em que apenas releva o conteúdo técnico. Acima de tudo, a técnica serve para que as fotografias fiquem exactamente como as idealizáramos. Especialmente quando se fotografa com película, caso em que estamos privados do benefício da visualização imediata da imagem. Quando se usam câmaras convencionais, é absolutamente decisivo ter um bom conhecimento das técnicas fotográfias.

Neste último caso os requisitos de domínio da técnica vão muito mais longe do que com a fotografia digital. Apesar de ser relativamente fácil fotografar com uma câmara de película em condições normais, em que basta uma consulta às indicações do fotómetro para se obter uma boa exposição, há casos em que as coisas se complicam se não se compreender a técnica e não se souber empregá-la. É o que acontece com a fotografia nocturna.

Eu não me arrogo conhecimentos suficientes para dar conselhos sobre como fotografar à noite com película. Para que o pudesse fazer, precisava de ter transposto uma última barreira (um Rubicão, the final frontier) que é a do uso do Bulb para exposições mais longas que 1/1. (Um dia vou ter de comprar um rolo baratucho só para treinar esta forma de fotografar.) Contudo, há dias tive um exemplo feliz de aplicação das técnicas fotográficas para obter uma exposição nocturna com sucesso, pelo que posso mencionar esta experiência sem receio de induzir o leitor em erro. Aliás, já a mencionei no Número f/ (ver aqui). Esta fotografia só foi possível porque conheço as regras da exposição e, depois de fotografar há já algum tempo, tenho obrigação de saber como funciona a câmara – ou melhor, esse tirano malvado a quem chamam «fotómetro».

Img - 018B

A minha intenção, nesta fotografia, era abstrair, tanto quanto possível, de tudo quanto rodeava a roulotte, concentrando o olhar na luz que provinha desta última. A única maneira de o fazer era tornar a parte superior da imagem num fundo negro, o que implicou usar um valor de exposição particularmente curto, mantendo contudo as luzes numa exposição correcta. Para isto, fui medir a exposição bem perto da roulotte, ajustando logo ali a abertura e o disparo. Que teria acontecido se tivesse medido a exposição no lugar onde fiz a fotografia, que seria a forma normal de acertar a exposição? Neste caso, como a luz era escassa, as altas luzes teriam ficado de tal maneira estouradas que os pormenores do interior da roulotte teriam surgido irreconhecíveis. As sombras, que eu queria reduzidas a negros, ter-se-iam tornado bem visíveis, porque o fotómetro teria apontado para um tempo de exposição maior do que aquele que usei. Isto teria por consequência que houvesse muitos elementos de distracção no enquadramento, como o plano por trás da roulotte, o qual é particularmente feio. Por outras palavras, a fotografia teria falhado – ou, pelo menos, não teria correspondido à minha intenção.

Claro que isto de ir medir a exposição às proximidades do motivo é uma trabalheira. Uma câmara com medição pontual ter-me-ia poupado este trabalho, mas teria sido muito pior se tivesse uma câmara sem fotómetro incorporado, caso em que teria de ter ido medir a exposição na mesma, mas com um fotómetro externo. Seja como for, o propósito de mencionar de novo esta fotografia é o de ilustrar como a técnica é importante e necessária para que possamos traduzir ass nossas intenções fotográficas em imagens. Esta fotografia é o resultado do conhecimento teórico das técnicas fotográficas aplicado à prática. Contudo, não deixo de advertir que é necessário encontrar um equilíbrio: uma boa fotografia necessita da técnica, mas esta não pode ser um fim em si. Este equilíbrio, a meu ver, só pode ser atingido se a técnica for encarada como um auxiliar, algo que podemos e devemos usar para conferir mais expressão às fotografias.

M. V. M.

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