Para que queremos lentes rápidas?

Olympus OM-2n, Olympus OM 50mm-f/1.4 @1/500, f/5.6
Olympus OM-2n, Olympus OM 50mm-f/1.4 @1/1000, f/2.8

Eu sei que já escrevi sobre isto um bom par de vezes, mas ando numa de investir, com a fúria incontida de um touro enraivecido, contra as palermices pré-concebidas sobre o material fotográfico, pelo que peço desculpa se estiver a ser repetitivo. Hoje o tema é o valor de abertura máxima das lentes. Com a diferença de ir escrever acerca da minha experiência pessoal, e não com base em doutrinas cibernéticas. O leitor retirará a conclusão que lhe aprouver sobre o que vai ler.

O que eu depreendo do que leio quando o tema de conversação na internet é a abertura máxima de uma lente, é que existe a percepção de que quanto maior for a abertura máxima, melhor a lente é. Apesar de isto ser genericamente verdadeiro, não quer dizer que uma lente de abertura máxima estreita (ou relativamente estreita) seja necessariamente má. Como os leitores sabem, tenho três lentes OM. Não conto aqui com as lentes do sistema Micro 4/3, porque não são de qualidade suficiente para aferir seja o que for. Das OM, uma é incrivelmente rápida, outra rápida e uma é lenta. São, respectivamente, a 50mm-f/1.4, a 135mm-f/2.8 (esta abertura máxima é muito boa para uma teleobjectiva) e a 28mm-f/3.5, que é o erro de casting numa colecção de equipamento que reputo de excelente.

Ora, quando experimentei a lente OM 28mm-f/2.8 de Raúl Sá Dantas, a qual não diferia significativamente da minha f/3.5, fiz uma espécie de intercâmbio lenticular e emprestei a minha 135mm-f/2.8 a R. S. D., que tem uma lente da mesma distância focal, mas com uma abertura máxima de f/3.5. As conclusões de R. S. D. foram muito idênticas às minhas: não existe uma diferença notória entre as duas lentes. Tal como eu, não vai decerto desenvolver uma obsessão pela versão mais rápida da sua objectiva.

Se este pequeno exemplo não for suficiente para convencer o leitor com convicções mais arreigadas sobre os benefícios de uma abertura pantagruélica, permitam-me agora relatar um pouco da minha experiência com as minhas lentes mais rápidas. A começar pela 50mm-f/1.4, que é uma lente que usava na E-P1 sempre que queria obter a focagem selectiva. Além de esta lente ter o campo de visão de uma pequena teleobjectiva quando montada na E-P1, esta última câmara dá-me ainda o benefício de usar a 50mm-f/1.4 com os valores de abertura maiores sob condições de luz intensa, graças a um tempo de exposição mínimo de 1/4000. Pois bem: esta lente pura e simplesmente não é utilizável na sua abertura máxima de f/1.4. As imagens surgem deslavadas, sem contraste e com uma nitidez deficiente. As coisas melhoram um pouco quando se fecha até f/2, mas a nitidez, o contraste e a saturação só são verdadeiramente bons a partir de f/2.8.

O mesmo com a 135mm-f/2.8. Esta lente funciona melhor na sua abertura máxima do que a 50mm, mas mesmo assim a nitidez deixa algo a desejar. As imagens são muito aceitáveis, mas há uma tendência para que as cores percam alguma saturação e os contornos dos objectos se tornem algo esbatidos. É uma coisa muito subtil, mas acontece. Na abertura f/4 as cores começam a ganhar a sua verdadeira vibração, mas subsiste alguma falta de nitidez. Esta lente só atinge o seu desempenho óptimo se a abertura for fechada até f/5.6.

Curiosamente, aquela de entre as minhas lentes que se comporta melhor na abertura máxima é a 28mm-f/3.5. O seu desempenho não é nada de esplêndido a f/3.5, mas a verdade é que as diferenças entre esta abertura e o f-stop seguinte, que é f/5.6, são dificilmente perceptíveis.

A demanda por grandes aberturas está relacionada com a percepção que algumas pessoas têm de que vão ter mais bokeh. Seja. Não vou discutir isto porque não adianta explicar a certas pessoas que o decisivo, para obter o bokeh, é estar muito próximo do motivo que se quer em foco. Apenas pergunto para que serve tanto bokeh se a fotografia é desagradável por parecer sobreexposta, plana, desbotada e sem contraste. As aberturas grandes não existem por os fabricantes terem decidido satisfazer as necessidades de fotógrafos de flores: existem para dar resposta aos profissionais que necessitam de fotografar motivos debaixo de condições de luz difíceis, para ser mais versáteis – para permitir fotografar ao entardecer sem flash e sem tripé. Os efeitos criativos vieram depois. Aliás, a redução da profundidade de campo que as grandes aberturas permitem nem sempre é um benefício: muitas vezes é impossível obter nitidez em todos os planos da imagem, o que pode ser altamente indesejável.

Não estou, com isto, a advogar que se usem lentes com abertura máxima f/8; o que digo é que muitas pessoas se interessam por lentes rápidas pelos motivos errados.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s