Das coisas da ciência e da lógica

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O texto de ontem pode ter parecido despropositado aos meus leitores mais fiéis, pois também eles têm uma abordagem sensata às coisas da fotografia e, provavelmente, não se apercebem dos casos de verdadeira psicose que são perceptíveis na internet acerca de questões pseudo-científicas relacionadas com alguns dos aspectos mais técnicos da fotografia. Melhor dito, do equipamento fotográfico.

Esta febre das equações teve em mim o efeito oposto ao que produz em muita gente, já que me fez nascer um desprezo olímpico (não, não é um trocadilho) pelas questões tecnológicas. Embora alguns me reconheçam um carácter metódico, tal não significa que seja muito dado a grandes cálculos e equações. Porém, sou um apreciador do pensamento lógico e racional e sei que é possível, manipulando uma das premissas de um silogismo, fazer com que uma falsidade ridícula possa ser comprovada logicamente, a despeito de não passar de um absurdo.

José Ferrater-Mora, no seu Dicionário de Filosofia, dá um exemplo desta perversão lógica através do seguinte silogismo: a) Napoleão era homem; b) todos os homens são negros; c) logo, Napoleão era negro. Há, de facto, uma concordância formal entre as premissas e a conclusão, pelo que esta é validada pela lógica formal. O problema é que a premissa menor está viciada.

É isto mesmo que se passa com as teorias fotográficas que partem da premissa que os valores da distância focal e da abertura se modificam quando uma lente é montada num sensor de área menor do que aquele para que foi concebida. Este é um logro, evidentemente, mas já me apercebi que há gente capaz dos raciocínios mais intrincados para o defender. Há casos que são quase patológicos, como os de um sujeito que anda pelos foros da internet a clamar que os fabricantes mentem descaradamente e enganam os consumidores quando apresentam os valores de distância focal e número f/ das suas lentes para formatos APS-C ou 4/3.

Como escrevi acima, tudo isto teve o efeito de me afastar dessas discussões. Não que entrasse nelas muitas vezes, salvo quando respondia a alguns comentários aqui no Número f/, porque este tipo de debate é absolutamente estéril e não contribui em nada para fotografar melhor. Como escrevi ontem, não é por se argumentar sabiamente sobre a «abertura equivalente» que alguém se torna num bom fotógrafo. O mais que pode acontecer a uma pessoa assim é ser tomada por alguém capaz de desenvolver um raciocínio matemático, mas este está viciado por premissas erradas, pelo que esse sábio das equivalências esteve, essencialmente, a perder horas preciosas da sua vida para nada.

A minha maneira de ver a fotografia exclui distracções inúteis. As teorias da equivalência integram este lote, tal como o equipamento supérfluo. Estes são campos nos quais procuro uma abordagem tão simples quanto possível. Mantenho o equipamento reduzido ao mínimo, mas tenho tudo o que preciso para as minhas fotografias. Por vezes imagino que me seria útil uma grande-angular ainda mais curta que os 28mm, ou uma pequena teleobjectiva que preenchesse o espaço entre a 50mm e a 135mm, mas estas não são verdadeiras necessidades. Com esta abordagem simples consigo manter-me concentrado no que verdadeiramente interessa: fazer fotografias que transmitam a maneira como vejo as coisas.

Isto não significa, porém, que sinta desprezo pelos aspectos técnicos. Pelo contrário, a técnica – ou melhor: a aplicação prática das técnicas fotográficas – é extremamente importante, desde que não seja vista como um fim em si. Procuro ter os conhecimentos técnicos mais vastos que puder, mas só na medida em que me ajudarem a fotografar melhor. E só os necessários para atingir este fim. Por exemplo, aprendi a focar à zona porque focar manualmente com a E-P1 me fazia perder tempo precioso, mas esta é uma técnica que descartei por ser tão fácil focar com o ecrã de focagem da OM. As técnicas que uso servem um só propósito: que as fotografias fiquem como quero.

A vantagem de conhecer as técnicas é que, uma vez dominadas, podemos esquecê-las. Quando precisamos delas, elas surgem naturalmente. Atingir este nível de conhecimento, evidentemente, algum estudo e muita prática, mas no fim acaba sempre por ser recompensador. O que não se deve é deixar que as técnicas se tornem numa obsessão. A técnica tem de ser posta no seu devido lugar: ela é secundária em relação à expressão. Uma fotografia pode ser tecnicamente perfeita e não ter o menor interesse, embora o inverso também seja verdadeiro: a fotografia de um motivo interessante pode ser um fracasso por não se terem sabido usar as técnicas necessárias.

Seja como for, hoje as pessoas parecem ter um interesse quase doentio pelos aspectos técnicos e tecnológicos da fotografia. O que não é bom, mas pior ainda é tentarem legitimar disparates com pseudo-ciência em lugar de se preocuparem em transmitir a sua visão das coisas através da fotografia.

M. V. M.

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