Ilford Delta 100

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Não deixa de ser fascinante que existam ainda tantas variedades de rolos. Suponho que, à semelhança do que aconteceu quando as vendas de CDs começaram a ultrapassar as de LPs, terá havido um tempo em que alguns se apressaram a anunciar, com foros de oficialidade, que a película morrera. É possivel que muitos ainda pensem assim, mesmo se começa a ser evidente que as notícias sobre a morte da película foram, como Mark Twain podia ter dito, largamente exageradas.

Se olharmos para as prateleiras das boas lojas de fotografia, podemos ver que os rolos estão muito longe de extintos. Pelo contrário, o que se vê mais é marcas a ressurgir ou a retomar a produção, como a Agfa e a Ferrania. Existem rolos 110, 135 e rolos para médio formato – 120 ou 220 –, que podem ser a cores ou a preto-e-branco e vêm numa enorme variedade de velocidades ASA; e há rolos negativos e transparências, ou slides. Como existe ainda uma grande variedade de marcas a fabricar diversos modelos, eu diria que há seguramente mais de uma centena de rolos de diferentes variedades à disposição do amante da fotografia convencional. (E não esqueçamos os grandes formatos, porque nem todas as películas vêm em rolos.)

Mesmo que apenas fabrique película para preto-e-branco, a Ilford contribui substancialmente para esta variedade. Os rolos da Ilford dividem-se em dois grandes grupos: os de grão cúbico, que incluem os meus favoritos FP4 e Pan F, e os de grão tabular, que se agregam na família Delta. Foi exactamente um destes últimos rolos, o Ilford Delta 100, que acabei de expor na semana passada. Devo dizer que não fiquei particularmente impressionado com o rolo de grão tabular que tinha experimentado antes, o Kodak T-Max 100, mas esta circunstância não me impediu de experimentar o Delta 100.

A qualidade que mais aprecio num rolo para preto-e-branco é o seu contraste. Segue-se a acutância, ou, se quiserem, a resolução. Como não sou eu quem os revela, aspectos como a versatilidade no uso de químicos ou a capacidade de ser puxado para sensibilidades superiores à nominal não me preocupam. Quanto ao contraste, o Delta é um rolo tipicamente Ilford – mas, tal como verifiquei quando usei o Kodak T-Max 100, existe, pelo menos em certas fotografias, uma espécie de compressão das sombras que priva a imagem de algum contraste. Isto é algo que vi no T-Max, mas também no Agfa APX 100; não é necessariamente mau, mas a imagem torna-se um pouco perfeita demais, o que não é necessariamente do meu agrado. É excelente para quem não gosta de sombras demasiado carregadas, mas ao mesmo tempo rouba, quanto a mim, alguma expressão às fotografias. Note-se, porém, que esta descrição das sombras significa que este rolo tem uma belíssima gama dinâmica no lado esquerdo do histograma, mas no lado direito o seu comportamento é muito diferente: o Ilford Delta 100 tende a estourar as altas luzes com facilidade. Mais até, ao que me pareceu, que o FP4. Este é um rolo que requer ainda mais cuidado com a exposição que o Ilford FP4: beneficia de alguma subexposição, o que, se for feito, não prejudicará significativamente as sombras. Devo dizer que não usei este rolo em situações extremas de contraluz, como fiz com o FP4 e o Pan F, mas nas fotografias de maior contraste, em que expus para a luz, o resultado foi o de as sombras permanecerem bem descritas, sem nunca resultarem em chiaroscuri.

A acutância deste rolo é muito boa, como se poderia esperar de um Ilford. Contudo, não tem o mesmo microcontraste do Ilford FP4, que auxilia a percepção de nitidez e resolução do pormenor de uma maneira que nunca encontrei em qualquer outro rolo. O que me parece é que o grão ligeiramente mais grosseiro do FP4 contribui para realçar as linhas que definem os objectos, o que não acontece com o Delta – que, neste particular, lembra novamente o Kodak T-Max. O que não é surpresa nenhuma, pois ambos são rolos de grão tabular. A natureza do grão do Delta significa, contudo, que o grão que existe é mais fino e menos perceptível, o que decerto agradará a quem goste de imagens extremamente límpidas e necessite de fazer grandes ampliações.

Este rolo deixa-me um pouco ambivalente. É bom – muito bom, na verdade –, mas não favorece a expressividade como o FP4. Embora esteja bastante acima do T-Max, as fotografias que fiz com o Delta 100 têm uma aparência muito semelhante à daquelas em que usei o Kodak T-Max. Se eu fosse um obcecado pela claridade, pela gama dinâmica e pela limpidez – entendendo-se esta como a ausência de grão –, o Ilford Delta 100 seria o meu novo favorito. Contudo, a fotografia não é apenas perfeição formal. Há características, na fotografia com rolos para preto-e-branco, que ajudam a conferir expressão à imagem. O grão é certamente uma delas. Não pode ser excessivo, como o do Ilford HP5, mas também não deve estar ausente. Isto, aliado à falta ocasional de contraste que detectei em algumas fotografias e é o resultado de um comportamento mais benévolo com as sombras, leva a que a minha preferência se mantenha. O Ilford FP4 é, para mim, o melhor rolo para preto-e-branco que existe – mas o Delta 100 está muito, muito próximo.

M. V. M.

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