Dúvidas

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Não, isto não aparece numa época do ano em especial nem tem nenhum facto tangível que o provoque: de tempos a tempos, sem que perceba muito bem como ou porquê, surge-me uma necessidade de questionar tudo o que faço. A fotografia não é excepção.

As minhas dúvidas são de vária ordem e a sua extensão pode ir desde os aspectos meramente técnicos até à formulação da pergunta para quê fotografar. Por vezes chego a perguntar-me por que tenho tantas dúvidas, já que extraio prazer do acto de fotografar, mas aquelas vêm sempre ter comigo.

A maior dúvida – a mãe de todas as dúvidas, como poderia ter dito o falecido Saddam – é sobre que tipo de fotografia quero fazer. Ao fim de todo este tempo (que, bem vistas as coisas, é tão pouco: ainda não chegou aos quatro anos), ainda não sei responder à pergunta, que quase todos fazem com alguma naturalidade, que tipo de fotografia gostas de fazer. A esta perplexidade acresce o facto de ser – talvez por ser ainda muito jovem na fotografia – extremamente permeável a influências. Por vezes vejo as fotografias de alguém numa revista ou na Internet e penso: “é isto mesmo que quero fazer”. Depois veio o Entre Imagens confundir-me um pouco mais: quero fazer fotografias dos recantos obscuros da mente, como Daniel Blaufuks; quero fazer fotografias de grande rigor geométrico, como Edgar Martins; quero fazer fotografias que ilustrem a beleza e efemeridade da juventude – esse bem que em definitivo me fugiu –, como Patrícia Almeida; e quero fazer fotografias da vida obscura das cidades, como António Júlio Duarte. E há, evidentemente, os clássicos, que estão sempre presentes quando fotografo. Esta influenciabilidade (esta palavra existe?) pode, e felizmente tenho essa consciência, conduzir-me à imitação, mas acima de tudo dificulta a fixação de uma linguagem própria; é como se fosse um Sísifo, permanentemente condenado a levar a rocha até ao topo do monte apenas para a deixar rolar pela escarpa abaixo e recomeçar tudo uma e outra vez até ao fim dos meus dias. Como se isto não levantasse um número suficiente de dúvidas, ainda há o facto de, ocasionalmente, encontrar um motivo interessante e decidir que é aquilo que quero fotografar até ao fim dos meus dias – só para mais tarde se me deparar um tema ainda mais interessante que me faz revogar a decisão anterior.

Depois há as dúvidas menores: farei fotografia a cores ou a preto-e-branco? Apesar de já ter pensado que esta última era a minha linguagem, a cor tem-me fascinado e intrigado – sobretudo pelas influências de Patrícia Almeida e António Júlio Duarte, com as suas transparências e aqueles verdes maravilhosos que só existem nos positivos de médio formato (120) da Fujifilm. O que me deixa a sonhar com uma câmara de médio formato, mas logo a seguir vejo uma Nikon Df ao vivo e as minhas prioridades alteram-se por completo.

Outra dúvida é sobre o interesse de fazer fotografia de rua – pelo menos tal como esta é normalmente entendida, i. e. fotografias a preto-e-branco, feitas com distância focal de grande-angular, de pessoas na rua. Os mestres que me habituei a admirar fizeram fotografia assim, mas hoje parece que qualquer um vai para a rua, fotografa, converte a imagem para preto-e-branco no computador e convence-se que é um «fotógrafo de rua». Não faço fotografia de rua. Ocasionalmente surgir-me-á uma cena de rua que me pareça interessante e fotografá-la-ei, mas não quero ser mais um imitador reles de Cartier-Bresson e Winogrand. De resto, por que não poderá ser a «fotografia de rua» a cores? E por que terá de ser usada a distância focal de 35mm? E por que há tanta gente a fazer fotografias completamente desinteressantes e a publicar em grupos do Facebook, imaginando-se pequenos Cartier-Bressons?

Apesar de tudo, fico satisfeito por ver que estas dúvidas não têm um efeito paralisador e que continuo a fotografar. Há uma dúvida que não tenho – ou, se a tenho, não penso muito nela –: o valor das minhas fotografias. É uma questão que não me importa. Pelo menos nesta fase em que não tenho certezas nenhumas. Se tivesse esta dúvida muitas vezes, e me deixasse convencer que as minhas fotografias não têm valor nenhum, já teria abandonado a fotografia. Não tenho fotografias boas nem más: tenho fotografias em que consegui exprimir as minhas ideias e outras em que falhei esse propósito. O resto são considerações técnicas que não são para aqui chamadas.

M. V. M.

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