A tentação dos infernos

Sobre o meu ombro direito tenho um anjo – uma miniatura de mim com uma túnica branca, um halo sobre a cabeça e, evidentemente, longas asas brancas – que me segreda ao ouvido: «tu não precisas de mais equipamento. Tu não és um profissional, o que tens é mais que suficiente».

Sobre o meu ombro esquerdo tenho uma versão reduzida de mim com pés de cabra, cauda, chifres e língua bífida, vestida de vermelho, que me sussura: «Tu mereces o melhor material. Mereces tudo o que sonhares».

Por regra, dou ouvidos ao anjo. Com efeito, eu não sou nenhum fotógrafo; não preciso de ter toneladas de material caríssimo para realizar a minha intenção criativa. Tudo o que preciso é optimizar o uso do que tenho. O anjo costuma acrescentar que o importante é o conteúdo da fotografia, ao que o diabo prontamente retorque que preciso do melhor material para poder realizar os meus ideais estéticos. O que costuma deixar-me ambivalente, porque ambos têm razão.

Apesar de dar prevalência ao anjo da temperança e da sensatez, por vezes o demónio tenta-me. Da última vez que me deixei levar pelas palavras sedutoras do pequeno Satanás que habita o meu ombro esquerdo, comprei a Olympus OM-2. Não sei se vou arder nos infernos por me ter deixado tentar; o que sei é que, se pudesse voltar atrás, à manhã de 12 de Junho do ano passado, faria tudo exactamente na mesma. A minha aventura com a fotografia convencional é algo que não trocaria por nada.

A questão é que este diabo, até hoje, tem sido bastante razoável. Esta tarde, porém, enquanto eu procurava um bom ângulo para fotografar os miúdos que saltavam da Ponte Luiz I, Belzebu apostou que ganharia de uma vez por todas a minha alma e colocou à minha frente alguém que me deixou próximo da vertigem e da perdição. Esta pessoa, esse enviado de Satã, é um fotógrafo amador de Düsseldorf, na Alemanha, chamado Hendrik Lohmann. Um turista de uma simpatia enorme, com quem conversei sobre fotografia durante quase duas horas, que trazia  a tiracolo um objecto que fez com que o meu demoniozinho me perseguisse com toda a obstinação dos infernos. Que objecto era esse? Nem mais nem menos que uma Nikon Df.

Venderia alegremente a minha alma para ter uma câmara destas. De pouco me importava arder no fogo eterno, desde que pudesse ser o dono de uma Nikon Df. Eu sei – é uma câmara digital, o que, para um recém-convertido à fotografia convencional, pode parecer um contrasenso (ou um anátema), mas esta câmara é simplesmente irresistível. E não apenas pelas linhas reminiscentes da FE2: esta câmara tem uma qualidade de imagem simplesmente maravilhosa. Não esqueçamos que, por baixo daquela pele retro, estão as entranhas de uma câmara profissional, a Nikon D4. Já que mencionei a pele retro, devo dizer que esta é mais bem conseguida do que eu pensava: a câmara não é tão grande e desajeitada como cheguei a imaginar depois de ler alguns comentários na Internet. É certamente maior que uma SLR clássica, mas não muito. Seja como for, é consideravelmente mais pequena que a Nikon D4, a dadora do sensor e do processador. E é bastante leve; tão leve, aliás, que me faz suspeitar das pretensões da Nikon de que esta câmara é totalmente feita de liga de magnésio.

O facto de ser leve compensa uma ergonomia que podia ser melhor. Comparando-a com a minha OM, que, por ser tão compacta, se torna simples de manusear, a Nikon Df – que tem um pequeno punho no painel anterior, o que teoricamente deveria melhorar a ergonomia – torna-se um pouco difícil de usar por causa do tamanho e da profusão de controlos. Contudo, não é como tentar segurar um tijolo coberto de sebo: há bastante espaço para colocar os dedos da mão direita, o polegar direito fica bem fixo num recesso do painel traseiro e a mão esquerda não tem dificuldades em segurar a lente.

Depois há aquilo a que só comecei a dar importância depois de ter contacto com câmaras SLR: o visor. As DSLR que experimentara até então deixaram-me pouco impressionado, mas a Nikon Df tem o visor mais maravilhosamente claro e límpido que alguma vez vi. A imagem que se vê é de uma naturalidade espantosa: é como ver as coisas a olho nu, com a diferença de ser perceptível a profundidade de campo.

Para este último atributo muito contribui a lente 50mm-f/1.8 que a Nikon lançou em conjunto com o corpo Df. Pois bem: esta lente é maravilhosa! Faz a minha 50mm-f/1.4 parecer lenta e escura. Operacionalmente, esta câmara é um espanto: a focagem… bem, eu podia dizer que é rápida, mas isto seria demasiado modesto: a focagem é instantânea. Os pontos de focagem podem ser escassos pelos critérios actuais, mas são precisos. Os comandos ao estilo das SLR são um pouco complicados de manipular, mas há um comando rotativo no painel posterior (o qual é idêntico ao das DSLR avançadas da Nikon) que compensa esta dificuldade ergonómica.

A Nikon Df é a única câmara que me faria voltar ao digital. O problema é ser tão cara. Cara para mim, porque, objectivamente, não o é. A Nikon Df custa menos de metade do preço da D4, apesar de ser essencialmente a mesma câmara. Eu é que não ganho para ela. O demoniozinho bem pode gritar e picar-me com o seu tridente, que não vai adiantar nada. Infelizmente, o otário do anjinho vai continuar a rir.

M. V. M.

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