As (outras) fotografias mais caras de sempre, Parte 2

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A quinta fotografia mais cara até hoje é uma tentativa de fotografar a cores que, avaliada pelos critérios contemporâneos, correu muito mal: as cores são esbatidas e imprecisas, o contraste é diminuto, a nitidez reduzida e é visível um flare monumental. A exposição também não está lá grande coisa. Os meus leitores que só vêm a este blogue criticar-me por eu não ser um adepto fervoroso do HDR não vão demorar o olhar mais que um segundo. Provavelmente vão ficar a pensar que Edward Steichen, autor de The Pond-Moonlight (1904) era péssimo – ou então vão congeminar as possibilidades que o HDR teria aberto a Steichen se esta técnica existisse há cento e dez anos. Por mim, o importante foi explorar as possibilidades da cor. Imagino o impacto que esta fotografia teve no seu tempo – mas o certo é que a fotografia a cores teve de esperar algumas décadas até que os seus arautos, como William Eggleston, a popularizassem.

Segue-se, nesta listagem decrescente, outra fotografia de Cynthia (Cindy) Morris Sherman. Desta vez é Untitled #153, que nos mostra a sua autora deitada na relva com uma caracterização que lembra a Marylin Monroe de The Misfits, mas coberta de lama. Esta fotografia pode originar as interpretações mais diversas; devo dizer que, quando a vi pela primeira vez, o que me veio à mente foi que esta era a imagem de uma mulher violentada – o que, por seu turno, abre outras possibilidades de interpretação. É esta capacidade de ser lida de diferentes maneiras que torna as boas fotografias interessantes – e esta é, sem dúvida, uma delas. Contudo, também podemos indagar se esta fotografia seria conhecida se não tivesse atingido aquele preço e não fosse de Cindy Sherman.

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A próxima é um retrato the Billy The Kid, ou William H. Bonney, ou William Henry McCarty Jr, ou ainda Henry Antrim. Tem a singularidade de ser a única fotografia conhecida de Billy The Kid, figura que povoa o folclore do oeste norte-americano. Neste caso não há grandes surpresas quanto ao valor que esta imagem atingiu, atento o seu valor histórico e documental.

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A oitava fotografia mais cara de sempre é Tobolsk Kremlin, uma paisagem urbana feita por Dmitri Medvedev, figura que tem alternado os cargos de Primeiro-Ministro e Presidente da Federação Russa com Vladimir Putin. Está muito bem executada em termos composicionais, mas uma coisa é certa: esta fotografia só foi arrematada pelo valor de USD $1,750.00 por ser de Dmitri Medvedev. Se fosse de um mestre da fotografia, seria escarnecida; se fosse de um anónimo, não poderia aspirar a mais que dois ou três likes no Facebook. De amigos muito chegados e complacentes.

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O primeiro nome entre os pioneiros americanos da fotografia aparece apenas no nono lugar nesta listagem. A fotografia é um nu, obviamente intitulado Nude, feito em 1925 pelo grande Edward Weston. Há muito a dizer sobre este nu: é completamente conceitual e abstracto. Apesar de ser imediatamente reconhecível como um corpo de mulher, esta imagem é fascinante porque abstrai das feições e de todos os sinais que podem identificar uma pessoa para deixar apenas as formas, os tons, a silhueta e o contraste. Excelente – mas seria de esperar outra coisa de Edward Weston? A minha única surpresa é esta fotografia figurar tão em baixo na lista.

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Por fim o décimo lugar. Uma fotografia de um familiar que não é uma fotografia de um familiar como as outras: é a fotografia que Alfred Stieglitz fez das mãos da sua mulher, a pintora Georgia O’Keeffe. Tal como Edward Weston, Stieglitz foi um dos modernistas que contribuiram, juntamente com Man Ray e outros, para elevar a fotografia ao estatuto de arte. Georgia O’Keeffe’s Hands é soberba, perfeitamente composta – desde a forma como as mãos se destacam do fundo até à posição dos dedos – mas há nesta fotografia algo que perturba e nos deixa a pensar: o modo como uma mão exerce uma enorme pressão sobre a palma da outra, como se quisesse autoinflingir-se dor. Uma fotografia enigmática e surpreendente. (Continua)

M. V. M.

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