Alças (ou: quando o autor se entrega ao DIY)

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O assunto de hoje pode parecer completamente frívolo, inútil ou disparatado. Escrever sobre alças num blogue de fotografia é um pouco como versar o tema dos atacadores dos sapatos numa revista de moda: para muitos é um dado pré-adquirido, algo de tão básico que não merece que se lhe dê cinco segundos de atenção. É como escrever sobre o acto de respirar numa revista de investigação clínica.

E no entanto a forma como seguramos a câmara tem aspectos que podem ser curiosos. Não deixa de ser interessante ver a maneira como as pessoas transportam as suas câmaras quando estão a fotografar: umas usam-nas presas ao pescoço, outras trazem-nas pelo ombro; há aquelas que enrolam a alça à volta do pulso e outras que não usam qualquer espécie de alça, trazendo a câmara na mão. Devo dizer que gostava muito de fazer parte deste último grupo, mas não posso. A prudência não me deixa. Não sou suficientemente relaxado para este uso e, de resto, não me parece aconselhável. Trazer uma câmara na mão aumenta a sua temperatura interior, o que, no caso das películas, pode ter efeitos nocivos. De resto, fiz demasiadas fotografias debruçado sobre os corrimões da ponte Luiz I para não pressentir o perigo de a câmara me escorregar das mãos e cair ao rio. Mesmo com uma alça, o frisson existe.

Deste modo, a primeira coisa que fiz quando tive uma câmara séria foi montar a alça que vinha na caixa – a qual, diga-se, é perfeitamente satisfatória e confortável –, com o intuito de a trazer pendurada no pescoço. A OM, porém, vinha sem alça. O Pedro Viterbo, da Máquinas de Outros Tempos, cedeu-me amavelmente uma alça de couro sintético, que escolhi de entre a enorme colecção guardada numa caixa. Esta alça – e aqui vou violar o velho preceito segundo o qual a cavalo dado não se olha o dente – era particularmente inflexível e demasiado fina para ser confortável, mas foi-me servindo até ao dia em que comprei uma alça artesanal mas ultra-confortável, de couro genuíno, por uns meros €15.

Esta última tem o problema oposto: é demasiado flexível. É também bastante volumosa. Estas características fazem com que a alça seja um estorvo quando preciso de montar a câmara no tripé. Por vezes, os próprios actos de retirar e inserir a câmara no saco são dificultados pela alça. No meu caso particular, ela interfere frequentemente com o curso da alavanca de avanço do rolo, tendo já perdido algumas ocasiões de fotografar porque o rolo não estava completamente avançado, com a consequência de o botão do obturador ficar bloqueado, impedindo-me de disparar.

As alças para trazer a câmara ao pescoço têm ainda o vício de transformar o seu proprietário num verdadeiro exibicionista equipamental. Nem é preciso ter uma daquelas alças da Canon que berram «EOS DIGITAL» para que a pessoa pareça que está a mostrar a sua câmara aos transeuntes. Acresce que esta é a forma de transporte preferida dos turistas: se este argumento não logra convencer o leitor dos malefícios de usar assim a câmara, não sei que mais dizer. Claro que, quando se têm câmaras e lentes avantajadas, é inevitável usar uma alça – mas não quando se usa uma câmara cujo maior mérito, aquando do seu lançamento, era ser a mais compacta da sua categoria.

Trazer a câmara pendurada no pescoço é, além de ostensivo e pouco prático, desconfortável: é impossível evitar que a câmara bata contra o estômago (ou a barriga ou o peito, conforme as preferências) ao caminhar. Para que isto não aconteça, tem forçosamente de se segurar a câmara. Ora, já que tem mesmo de se pôr a mão na câmara, por que não – conjecturei eu – usar uma alça pequena, prendendo a câmara ao pulso? Sei que esta é a forma de usar câmaras point and shoot, mas que importa? Tudo o que queria era uma solução que evitasse que a câmara caísse no caso de me escorregar das mãos e que não impedisse o manuseamento correcto dos comandos.

Meu dito meu feito. Tinha a matéria-prima, na forma da alça que me foi dada pelo Pedro Viterbo: foi apenas uma questão de a encurtar. Pude usar os cravos originais, pelo que a tarefa ficou ainda mais facilitada. Depois deste labor de DIY, testei a alça, sujeitando-a a forças muito superiores às que normalmente vão ser exercidas, e resistiu. Operacionalmente, não interfere com os comandos da câmara. O único problema é continuar a ser muito inflexível, mas o seu preço atenua largamente este inconveniente.

Aqui está: uma alça prática e funcional, com um ar que não levaria ninguém a suspeitar que é uma solução improvisada. Na verdade, já vi à venda coisas mais toscas e com ar mais mal acabado. Ficou-me, bem feitas as contas, pelo valor astronómico de €0,00 e apenas perdi cerca de uma hora para a fazer. Isto é o DIY levado ao paroxismo – ou o novo zénite da futilidade. Ainda não decidi.

M. V. M.

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