Fora do tema: o revivalismo e eu

Há muito que não escrevo aqui nada que extrapole da fotografia. Como hoje não me ocorre nenhum tema fotográfico merecedor de prosa, eis chegada a altura de tergiversar um pouco.

O meu convívio com pessoas da minha geração e da minha idade tem-me mostrado que uma das facetas mais tenebrosas do envelhecimento é a tendência para o conservadorismo nos gostos. As pessoas da minha geração continuam arreigadas à música que ouviam há trinta anos, vestem como vestiam quando eram jovens, usam uma linguagem repleta de expressões anacrónicas e, de um modo geral, parecem presas ao passado. A única coisa em que parecem acompanhar o progresso é nos gadgets, o que é uma espécie de disfarce para parecerem imensamente actuais aos olhos dos mais jovens.

Eu não vou dizer aqui que estou plenamente inserido no espírito do tempo e que não olho para o passado. Cultivar o que gostava quando era jovem, como fazem as pessoas de 50 anos, é bom e interessante; por vezes podemos até inculcar alguns dos nossos gostos nas novas gerações com algum sucesso, mas o que eu não sou é revivalista. Há um fenómeno que não compreendo e ao qual não quero aderir: o revivalismo dos anos 80. Francamente, já mete nojo esta diarreia dos oitentas a que estamos sujeitos. Então na música…

Na semana passada deu-me para investigar um grupo australiano contemporâneo chamado Cut Copy. Esta banda tem uma sonoridade que evoca aquilo a que se chamou Eurodisco, cuja liderança costuma ser, erroneamente, atribuída a uma banda que era a minha favorita três décadas atrás: os New Order. Os Cut Copy não se inspiram assim tanto nos New Order – a sua música é mais evocativa dos Pet Shop Boys ou dos Human League – mas, depois de ouvir Lights & Music e Hearts on Fire e ver os respectivos clips no You Tube, deu-me vontade de ouvir New Order.

Fiquei decepcionado. Um dos temas com que mais exultava era Bizarre Love Triangle (na versão do álbum Brotherhood, não na mistura de Shep Pettibone). Claro que continua a ser uma canção fantástica, com aqueles célebres arpejos de sintetizador que precedem o refrão, mas já não me arrepia. Já não fico com pele-de-galinha quando ouço Bizarre Love Triangle. Nem com Thieves Like Us, Perfect Kiss, Dreams Never End ou outra qualquer. A exultação que sentia ao ouvir estas canções desapareceu.

É certo que, entretanto, cultivei o gosto pelo Jazz e pela música clássica – depois de se apreciar Anton Bruckner fica-se com critérios muito estritos na escolha dos gostos musicais –, mas não é esta a causa da minha frieza ao ouvir as canções que idolatrava noa anos 80. Depois daqueles vídeos todos dos New Order, resolvi ouvir uma canção que descobri há escassos meses, à qual já aludi aqui: Iron, de Woodkid. Os arrepios e a pele-de-galinha voltaram – pela mão de um artista que se dá com gente como Pharrel Williams.

O que posso dizer disto? Eu evoluí – pelo menos nisto da música. Penso que posso dizer que acompanhei os tempos. Na fotografia, por exemplo, não o fiz: parece-me ridículo ver gente a fotografar com tablets e considero as selfies uma manifestação de imbecilidade. Na música, porém, não consigo ouvir o que se fazia no passado. Salvo algumas excepções, como os Kraftwerk, a música dos anos 70 e 80 envelheceu mais depressa do que eu.

A música dos anos 90, que acompanhei com avidez, também não me desperta grandes emoções quando a ouço. Olho para as minhas estantes de LPs e CDs e não me apetece ouvir nada daquilo. É raro divertir-me ouvindo essa música. Anteontem ouvi, com grande prazer, Sofa Rockers, dos Sofa Surfers (bom nome para um grupo, mas não tanto como “Butthole Surfers”) e Gute Laune, dos Tosca; e hoje entretive-me a ouvir parte do volume 2 de Earth, a série de compilações organizada por LTJ Bukem para a sua editora (defunta) Good Looking, mas estas são excepções. Nenhuma canção pop é eterna. Nenhuma resistirá ao passar do tempo. Para quê, então, ressuscitar as canções que ouvíamos na adolescência? Por vezes, evocar os bons momentos que vivi tem em mim o efeito oposto ao que muitos experimentam: faz-me lamentar já não poder nem saber vivê-los como o fiz.

Eu não olho para trás. Não sou nostálgico nem fico preso ao passado. Por vezes o presente – e o que ele mostra do futuro – assusta-me e faz-me sentir o peso da idade, mas não tenho medo nem me refugio no passado, como se quisesse viver nele para sempre. Tudo é transitório. Quem não aceitar esta realidade está condenado a não compreender o que se passa à sua volta.

M. V. M.

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