As minhas ambiguidades

imagesTenho uma natureza avessa a experiências. Por vezes sinto-me como se houvesse um travão em mim que me impede de abrir trilhos novos ou percorrer as estradas menos batidas, preferindo o certo e seguro. Este meu traço de personalidade, originário de uma prudência e sensatez que são parte integrante de mim, conflitua frequentemente com outras características minhas. Uma destas é a curiosidade.

Este conflito deixa-me muitas vezes nas bordas da ambiguidade. Quero saber tudo o que há para saber sobre determinada coisa, mas há sempre um lado prudente que me diz que esse conhecimento é desnecessário ou inútil e que estou a perder o meu tempo. Esta ambiguidade pode, por vezes, fazer-me incorrer em incoerências.

Uma área em que as minhas incoerências são mais manifestas é a dos rolos. É necessário que compreendam que os rolos são um mundo que se abriu perante mim quando decidi violar as fronteiras da sensatez e irromper pelos territórios vastos e (para mim) inexplorados da fotografia convencional. O meu lado prático e prudente está constantemente a dizer-me que devo assentar num único rolo a cores e noutro a preto-e-branco, sendo mais ou menos certo que estes são, respectivamente, o Kodak Portra 160 e o Ilford FP4 Plus 125; mas a minha curiosidade impele-me a questionar se é inteligente manter esta preferência; se não haverá rolos ainda mais satisfatórios e que sirvam melhor a minha linguagem fotográfica.

Como se isto não bastasse, acresce que sou crítico em relação a tudo o que faço. Olho para as fotografias feitas com o Kodak Portra e, por vezes, concluo que este é um rolo ao qual falta alma: as cores são precisas, mas será que esta característica é desejável? Olho para as fotografias de Patrícia Almeida e António Júlio Duarte, feitas com rolos Fuji de médio formato, e compreendo que o Portra nunca me dará aqueles verdes maravilhosos. A consequência disto é pensar que a minha escolha não é, afinal, tão definitiva como queria.

O mesmo no preto-e-branco: apesar de altamente satisfatório, o Ilford FP4 tende a exacerbar as altas luzes de uma maneira que nem sempre é agradável. Depois há as questões postas pela natureza do grão: decidi, depois de usar o Kodak T-Max, que o grão tabular não me serve; que rouba expressividade às fotografias. Isto ajudou-me a escolher o FP4, de grão cúbico, como o meu favorito. Pelo contraste que obtenho e pela nitidez, que me parece insuperável. Mas não haverá alternativas? Será que não posso obter bons resultados com um rolo de grão tabular?

Mesmo quando opto por fazer experiências, as minhas escolhas são largamente determinadas pela lógica, com base em premissas que dou por assentes. Sei de antemão que um rolo de alta velocidade não me dá o contraste que quero – mas depois experimento um rolo como o Ilford HP5 e vejo que esta conclusão não é válida e que este rolo esmaga o Tri-X em matéria de contraste (mas não na qualidade do grão, que torna o Ilford completamente inapto).

Por tudo isto, parece-me que não é insensatez nenhuma estar constantemente a fazer novas experiências. A única maneira de aferir a qualidade de um rolo é usando-o. Já me aconteceu fazer experiências que só confirmaram os meus raciocínios lógicos, tendo a última delas sido o deplorável Kodak Ektar 100. Sabia que este rolo nunca me daria os resultados pretendidos, mas não me abstive de usá-lo. Foi tempo (e dinheiro) perdido? Decerto. Mas pelo menos pude ter uma certeza que de outro modo seria impossível. A questão é que há muitos rolos e estes vêm em muitas variedades: esta experimentação permanente pode dificultar a formação de uma estética que me seja própria. De resto, quando compro um rolo fico preso às suas características até o esgotar. É por esta razão que me parece tão aconselhável escolher um bom all rounder, um rolo versátil que possa usar numa grande latitude de situações fotográficas. Mesmo assim não consigo evitar que a dúvida me venha perturbar – não haverá melhor?

Tudo isto para dizer que ontem resolvi fazer uma experiência com mais um rolo. Desta vez é o Ilford Delta 100. Só vou poder formular uma opinião sobre este rolo de grão tabular – comprei-o a despeito da má experiência com o Kodak T-Max 100 – quando vir as digitalizações, mas como sei que os Ilford têm mais resolução e contraste que os Kodak, pode muito bem acontecer que este Delta 100 seja o rolo perfeito. O grão tabular é mais suave que o cúbico, produzindo imagens mais limpas. Só mais tarde vou poder determinar se esta limpidez é preferível à expressão que um grão mais grosseiro confere às fotografias. As experiências parecem longe de estar terminadas.

M. V. M.

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