Apologia de uma fotografia

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É necessário ser justo. A única razão por que a fotografia Rhein II, de Andreas Gursky, é comentada pela comunidade fotográfica, é por ser a fotografia mais cara do mundo, o que me parece, no mínimo, redutor. Por seu turno, os que procuram justificar o valor absolutamente obsceno que esta fotografia atingiu fazem-no, no geral, com base no tamanho (esta fotografia tem mais de três metros de largura).

Então é só isso – uma fotografia cara porque é grande? Será que Rhein II se reduz a ser uma fotografia que é cara por ser grande, ou que apenas merece ser discutida pelo seu preço?

É evidente que não. Se olharmos para outras fotografias que são adquiridas por vários milhões, veremos que, salvo poucas excepções, todas elas têm um valor meramente documental. Uma delas, por exemplo, é um daguerreótipo de Billy The Kid. E, se o tamanho fosse critério aferidor do preço de uma fotografia, não existiriam painéis publicitários nas ruas por serem demasiado caros. Por outro lado, da lista das fotografias mais caras do mundo não consta nenhuma de autores como Helmut Newton, Richard Avedon, Robert Capa, Annie Leibovitz ou qualquer outro fotógrafo ou fotógrafa que se tenha distinguido pelo mérito da sua obra, com a excepção de duas de Cindy Sherman e outras duas de – evidentemente – Andreas Gursky. Deve haver algum motivo para isto.

É extremamente injusto olhar apenas para a questão do valor pecuniário quando o tema é Rhein II. Seria bom que fôssemos capazes de ver esta fotografia abstraindo dos milhões que alguém pagou por ela, porque Rhein II é uma fotografia excepcional. É uma fotografia na qual o rigor geométrico predomina, construída (sim, Rhein II é uma fotografia que foi construída pelo seu autor) com linhas horizontais que estruturam a imagem em camadas visuais: é uma fotografia que conduz o olhar na horizontal, mas se a virmos no sentido vertical ainda se torna mais interessante, porque nos apercebemos que foi arquitectada para formar camadas, definidas pelas linhas que separam os diversos elementos da composição.

Esta fotografia tem o privilégio da simplicidade: não existem elementos que perturbem a atenção e desviem os sentidos das suas linhas estruturantes. A composição não podia ser mais simples: o leito do rio é o motivo central, mas o relvado dividido pela faixa de rodagem, a margem oposta e até as nuvens contribuem para uma sensação de harmonia perfeita. Para esta harmonia contribuem também as cores, que são, tal como a composição, rigorosas: não há qualquer saturação que prenda o olhar do espectador, nenhum tom que possa desviar a atenção das linhas e das camadas que elas formam.

Rhein II é uma das grandes fotografias da história. Não tenho dúvidas, depois de analisá-la desligada de factores exógenos como o preço e o tamanho da impressão (embora este último possa acrescentar algo à experiência visual), que é uma das fotografias mais conseguidas de sempre. Pode não ter um impacto visual muito relevante (a não ser, de novo, pelo seu tamanho imponente), mas as grandes fotografias não são aquelas que impressionam instantaneamente: estas últimas caem no esquecimento ao fim de alguns instantes. Rhein II não é uma fotografia que conte uma história, mas nem todas as fotografias precisam de o fazer porque a fotografia é uma arte visual que vive da estética (embora não deva resumir-se a ela, sob pena de cairmos na frivolidade). Rhein II foi o resultado de um conjunto feliz de circunstâncias, mas estas foram procuradas por Andreas Gursky: o equilíbrio desta fotografia, que é absoluto, seria destruído se o céu estivesse preeenchido de nuvens caóticas, mas Gursky esperou por um céu cujas nuvens formassem linhas direitas, para não quebrar a harmonia. Se estas nuvens não tivessem surgido, provavelmente Rhein II nunca teria sido feita. Tal o labor que esta fotografia requereu.

Depois de tudo isto, é-me difícil ver Rhein II como sendo meramente a fotografia mais cara do mundo, mas ainda há mais trabalho nesta fotografia: foram eliminados do enquadramento uma fábrica e um transeunte que passeava um cão. A presença destes elementos tornaria Rhein II numa fotografia estúpida. A sua exclusão por via da edição da imagem, longe de tornar a fotografia numa mentira, foi uma manifestação de génio. Esta fotografia nunca teria resultado se Gursky tivesse optado por manter esses elementos: o rigor geométrico e a harmonia teriam sido destruídos e a fotografia perderia toda a sua força.

Devo dizer que Rhein II tem sido uma inspiração para mim: não por imaginar que algum dia vou vender uma fotografia minha por aquela fortuna, mas por me ter alertado para a necessidade de simplificar os elementos estruturais da imagem. Uma fotografia deve estruturar-se sobre elementos visuais simples para resultar. Contudo, a aparente simplicidade de Rhein II, que leva a que muitos se sintam perplexos perante o valor monetário que adquiriu, exigiu (creio eu) não algumas horas, mas muitos e muitos dias de trabalho. Penso que não incorrerei em exagero se escrever que necessitou de anos de dedicação e esforço. Isto é, evidentemente, um paradoxo, mas é incrivelmente complexo atingir este nível de simplicidade.

Por tudo isto, penso que esta fotografia não pode, de forma alguma, ser reduzida a uma excentricidade cara. Apesar de ainda ter dúvidas sobre se o valor atingido é inteiramente justificável – há decerto muito de especulativo nele –, não tenho quaisquer reservas quanto ao seu valor artístico.

M. V. M.

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