As coisas que o Entre Imagens me ensinou

indexNão é sensacional ter havido um programa de televisão em sinal aberto sobre fotografia? E que esse programa mostre a obra de alguns dos melhores e mais interessantes fotógrafos portugueses, ao mesmo tempo que os deixa discorrer sobre a sua obra, a sua maneira de pensar e a forma como esta se repercute nas suas fotografias? Claro que um programa como o Entre Imagens só podia ter passado na RTP2, o canal de sinal aberto que é visto por 2,8% do universo de telespectadores. (Lamentavelmente, esta estatística mostra também que só existem 2,8% de telespectadores inteligentes e com bom gosto – o que é uma pena, evidentemente, mas é demonstrativo do estado do país no que toca à literacia e ao cultivo das artes: os restantes 97,2% dos que vêem os canais de sinal aberto preferirão ver, possivelmente, reality shows abjectos, telenovelas e concursos de karaoke travestidos de mostras de talentos. Ora bolas…)

O Entre Imagens foi, em muitos aspectos, um programa surpreendente. Surpreendente pelo tema porque, numa altura em que a fotografia está de tal maneira abastardada que se torna fácil recusar-lhe qualquer pretensão artística, os documentários incidem sobre essa mesma faceta da fotografia. Não é por acaso que praticamente todos os fotógrafos documentados neste programa são freelancers: é entre estes que mais se cultiva a fotografia artística. Surpreendente, também pela escolha dos fotógrafos: em lugar de procurar os mais óbvios, mostrou-nos nomes que são mais ou menos desconhecidos – e, com isto, pude ficar a conhecer obras fotográficas extremamente originais e interessantes.

Ora, o que me trouxe o Entre Imagens de novo? Antes de outra qualquer consideração, devo dizer que me abriu os olhos. Tornou-me consciente de inúmeras possibilidades temáticas que nem sabia poderem constituir bons motivos fotográficos. Neste aspecto o Entre Imagens começou da melhor maneira possível, com António Júlio Duarte. Este fotógrafo tem uma apetência por temas obscuros da vida nas cidades que me deixaram absolutamente fascinado. Edgar Martins deixou-me obcecado com a necessidade de procurar o maior rigor geométrico para as minhas fotografias; Augusto Brázio e Patrícia Almeida deixaram-me literalmente boquiaberto com as suas imagens: um, pelas temáticas que escolhe; outra, pela beleza e pela noção de perda e irreversibilidade que só alguém na casa dos cinquenta anos pode saber o que é. E, evidentemente, houve aquele último episódio sobre o único fotógrafo cuja obra já conhecia, cuja exposição documental na televisão serviu para reforçar a minha convicção que é o melhor fotógrafo português: Daniel Blaufuks.

Do lado técnico houve inúmeras lições a aprender. António Júlio Duarte e Patrícia Almeida desenvolveram em mim uma verdadeira obstinação em converter-me ao médio formato. Por causa deles – mas também por um facto que coincidiu temporalmente com os primeiros episódios do Entre Imagens, que foi a descoberta da obra da maravilhosa Vivian Maier –, fiquei obcecado com o médio formato e dou por mim a sonhar acordado com TLRs e Fujis GF670. O formato quadrado, que anteriormente desdenhava, parece-me agora cheio de possibilidades: é bem mais exigente que o 3:2 quanto à composição. Fotografar no formato 6:6 levaria mais longe as minhas noções de composição e abrir-me-ia novas formas de ver as coisas e de as fotografar.

Por fim, o Entre Imagens não podia deixar de me agradar porque serviu para confirmar algo que sabia: a película ainda é um meio fascinante. O facto de muitos dos fotógrafos que estes documentários deram a conhecer usarem rolos só me deixou mais seguro da minha opção. Ou melhor: deixou-me mais certo de que estou do lado certo da barricada. Se aqueles fotógrafos usam rolos, não é decerto por frivolidade retro ou por terem perdido contacto com a realidade dos dias de hoje: é por o filme ser capaz de coisas que o digital ainda não atinge. Especialmente no médio formato.

A RTP está de parabéns por ter tido a iniciativa de pôr uma série tão interessante como esta. Foi para mim totalmente inesperada, o que contribuiu para que a visse ainda com mais interesse. Há reparos a fazer? Certamente. Em alguns episódios a monotonia atacava rapidamente, o que notei, sobretudo, nos episódios dedicados a Cândida Albergaria, José M. Rodrigues, José Luís Neto e, sobretudo, Jorge Molder. Mas nada disto impediu que visse Entre Imagens com o maior prazer – nem que aprendesse muito com esta visualização.
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(*) Ainda há. Embora o Entre Imagens já não passe na RTP2, todos os seus episódios podem ser vistos no website criado especialmente para esta série.

M. V. M.

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