Cor

spectrum

É certinho: quando compro um rolo a cores, demoro mais de um mês a expô-lo. Há duas razões para que isto aconteça: a primeira é que estou cada vez mais convencido que a minha linguagem é o preto-e-branco. Não me desagrada fazer fotografias a cores – pelo contrário, ainda este fim-de-semana tive uma sessão em que me deu muito gozo fotografar com o Kodak Ektar 100 –, mas sinto que não estou no meu elemento quando o faço. É necessário que uma determinada cena tenha a cor como elemento essencial – i. e. que a fotografia só funcione a cores – para que não use o preto-e-branco.

A outra razão é uma que vai parecer uma das minhas hipérboles crípticas, mas vão perceber muito rapidamente que não é nenhum exagero: é que é extremamente difícil fotografar a cores. Sim, eu sei que hoje toda a gente, menos um punhado de pessoas com pretensões artísticas, fotografa a cores, mas é necessário muito cuidado para que a fotografia resulte bem quando se inclui o elemento cor. A cor requer uma atenção especial porque nem todos os tons formam uma harmonia.

Esta harmonia nem sempre é fácil de obter. Os motivos que se nos deparam, especialmente quando queremos fotografar nas cidades, são frequentemente caóticos e mostram uma profusão enorme de cores, as quais não são necessariamente bem combinadas. Pelo contrário, nas nossas cidades (e noutras, evidentemente, mas por essas não posso falar) há uma tendência preocupante para se permitir o caos cromático, sendo frequente que na mesma rua haja uma casa cor-de-rosa a confinar com uma amarela e esta, por seu turno, com outra de azulejos verdes. Com uma roxa nas imediações. O preto-e-branco, evidentemente, estabelece uma ordem tonal em cenas como estas ao reduzir a paleta cromática a tons de cinzento, pelo que o problema da harmonia pode ser ultrapassado – embora no preto-e-branco seja importante ter as relações entre os tons em consideração, mas esta é outra questão.

Na verdade, não há nada mais frustrante do que encontrarmos uma pradaria de um verde primaveril e descobrirmos que há um bidão de plástico azul eléctrico a estragar o enquadramento. Normalmente as pessoas ignoram esta questão quando fotografam a cores, mas tal não significa que não seja importante. A combinação das cores é uma arte em si mesma; uma fotografia na qual não exista harmonia entre as cores propicia uma sensação desagradável. A cor tem uma importância tão grande na composição que qualquer perda de harmonia se torna conspícua e destrói a sensação visual por completo.

A cor não tem apenas um papel estético. Apesar da sua importância para o aspecto visual da fotografia, a cor tem uma outra característica essencial: ela representa emoções. Sensações como a alegria ou o optimismo são incorporadas na fotografia através das cores vivas, enquanto as cores frias e mortiças induzem emoções de outro tipo. Cores como o vermelho, o amarelo, o azul do céu e os verdes vibrantes induzem sensações de vivacidade e bem-estar, ao passo que o preto-e-branco, neste aspecto – e só neste –, é menos expressivo.

Com efeito, o preto-e-branco e a cores são linguagens fotográficas completamente diferentes: o primeiro, ao abstrair da cor, concentra o olhar nas formas e texturas; a cor remete para as significações imediatas e para a realidade. E é esta a sua grande dificuldade na fotografia artística, porque nesta a harmonia torna-se fundamental. Daí que não seja exagero nenhum dizer-se que, apesar de se ter tornado maioritária, a fotografia a cores é bem mais difícil e problemática do que à primeira vista pode parecer.

M. V. M.

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