O logro dos puristas

OLYMPUS DIGITAL CAMERA
Ficheiro JPEG tal como saiu da câmara: pouco contraste, altas luzes estouradas, aberrações cromáticas insuportáveis

Eu fui um purista. Deixem-me começar por esta confissão. Houve uma altura da minha vida em que acreditei que uma câmara digital devia produzir boas fotografias tal como elas são descarregadas para o computador. Foi por este motivo que quis comprar uma câmara evoluída.

O choque com a realidade produziu-se muito cedo. Talvez por pensar que os JPEG que ia vendo na Internet eram tal como saídos da câmara, cedo fiquei desiludido com a qualidade das fotografias que obtinha. Algumas saíam bem, mas eram uma minoria: a câmara tem uma excelente descrição das cores, mas as lentes não ajudam muito a conseguir bons contrastes – para além, evidentemente, dos problemas de excesso das altas luzes que desde sempre se manifestaram. Bem cedo percebi que tinha de haver um mínimo de retoques para que a imagem ficasse como a idealizei. Eu retocava as imagens quando tinha a compacta, mas foi precisamente para me livrar dessa necessidade que comprei uma câmara decente. Este raciocínio mostra como estava enganado.

Nenhuma câmara é perfeita

Tinha acabado, sem o perceber, de cair na maior esparrela da fotografia digital: a de pensar que era com uma câmara melhor que ia fazer fotografias com maior qualidade. Agora que tinha a melhor câmara que podia ter, nada me ia impedir de fazer fotografias iguais àquelas imagens maravilhosas que via na Internet. Pensava eu.

Demorei algum tempo a perceber que aquelas imagens eram intensamente trabalhadas. Custou-me a aprender que resultados daqueles eram fruto da adição de camadas no Photoshop – quando eram JPEGs, claro. Porque depois há o Raw, que me suscitou alguma relutância por não compreender bem que isso dos JPEGs não era nada do que parecia.

Olhando um JPEG acabado de sair da câmara, sem edição, as conclusões são invariavelmente as mesmas, quer a máquina seja uma Olympus E-P1, uma Nikon D7000 ou uma Canon 5D: os resultados do processamento pela câmara são demasiado evidentes para passarem despercebidos. Há sempre – sempre! – uma textura granulosa nas porções mais homogéneas da imagem (como o céu), que é o que acontece quando se deixa a redução do ruído do processador da câmara fazer os seus estragos; as altas luzes são sempre proeminentes e as sombras ocultam muito pormenor; as cores não são nada naturais, surgindo sempre com uma saturação estudada para agradar ao cliente incauto. A imagem, quando comparada com um Raw bem trabalhado no Lightroom ou no DxO Optics, fica sempre a perder. Os ficheiros JPEG têm uma qualidade que é meramente aparente e não resiste a uma boa observação.

O que se pode concluir da análise de um JPEG saído da câmara é que não há câmaras perfeitas. Nenhum construtor se arroga que um dos seus produtos é capaz de fotografias perfeitas tal como são descarregadas para o computador. Todas as Leica – o que inclui as M e as médio formato da série S – incluem uma cópia do Adobe Lightroom. Isto podia ser interpretado como uma confissão de derrota, de incapacidade de fazer uma câmara digital perfeita, mas não é: é o próprio digital que é imperfeito. Tal como as fotografias da era convencional, cuja qualidade dependia da destreza na revelação e no ampliador. Se é verdade que não há câmaras perfeitas, isto também é verdade em relação às fotografias em geral. A perfeição não existe. Mesmo as fotografias feitas nos grandes estúdios, com câmaras de médio formato, são feitas em Raw e trabalhadas exaustivamente.

Por outro lado, é estúpido ser purista quando o processador da câmara faz tanto trabalho de edição. A questão, em relação à escolha entre Raw e JPEG, é sabermos se queremos ter controlo sobre o processo fotográfico ou se preferimos deixar que o critério de quem programou a câmara se sobreponha ao nosso gosto. Eu cá prefiro a primeira opção. Assim faço fotografias que ficam muito mais conformes à minha ideia original.

M. V. M.

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