Mais sobre comentários

Durante muito tempo, preocupavam-me os excessos que lia na Internet. Refiro-me, claro, àqueles cometidos em espaços de comentários em notícias, blogues e sítios como o Facebook. Assustavam-me a linguagem, a violência verbal, a quantidade de insultos, o desrespeito por quem tem opiniões diferentes. Por vezes pensava que, se as pessoas que incorriam nesses excessos tivessem algum tipo de poder, deveria ter medo daquilo que elas fariam: seriam tiranetes dispostos a abafar qualquer voz que se opusesse às suas ideias.

As minhas preocupações não têm razão de ser, mas houve motivos fundados para que pensasse daquela maneira. Eu sou apenas um filho da classe média: os meus pais trabalhavam, frequentei o ensino público, usava – e ainda uso – o sistema nacional de saúde e viajava (ainda o faço com frequência) nos transportes públicos. Nunca fui mais que um cidadão da classe média, sem nada que me distinguisse de outras pessoas de quaisquer outras classes (sim, porque eu acredito que todos são iguais, apenas variando as circunstâncias externas em que vivem). O facto de nunca ter pensado em mim como alguém dotado de qualidades que me distinguissem fez-me pensar que aquilo que me é acessível (como o conhecimento) o é a qualquer outro. O mesmo com a educação, o bom senso ou aptidões físicas e psicomotoras: se eu sou capaz, qualquer outro é. E o inverso seria verdadeiro, mas logo por isto se vê que as coisas não funcionam exactamente assim.

Por tudo isto, passei uma parte substancial da minha vida a pensar que todas as outras pessoas têm níveis razoáveis de inteligência e sensatez. Estava enganado. Há pessoas que são capazes de uma estupidez de proporções monumentais e de uma falta de bom senso que chega a ser chocante. O pior é que, agora que toda a gente tem computador e acesso à Internet, ninguém se coíbe de mostrar a estupidez, ignorância, falta de educação e de respeito, agressividade e aleivosidade de que sofrem. É como se tivesse vivido demasiado tempo dentro de uma redoma e esta se tivesse partido, ou se sempre tivesse vivido à superfície e nunca tivesse tido contacto com um mundo subterrâneo que se movia debaixo dos meus pés. Vivi sempre rodeado de pessoas com uma maneira de pensar semelhante à minha e, possívelmente, caí no erro de julgar que toda a gente era assim.

O que me chocava mais, no meio de tudo isto, era mesmo a falta de respeito pelas opiniões diferentes. Cada um parece julgar-se possuidor de certezas absolutas e quem se atrever a exprimir ideias diferentes incorre numa ira furibunda e ilimitada que não conhece limites na sua expressão. Há muito de cobardia e pusilanimidade nesta atitude, mas há mais ainda de sobranceria e falta de educação. Há também muita leviandade na forma como se criam as convicções sobre as opiniões de que se discorda: muitas vezes aquelas são formuladas com basde numa frase ou numa linha, as quais por vezes são mal interpretadas ou desligadas do contexto. Não importa – a detecção dessa diferença de opinião (que pode até não existir) serve de pretexto para aliviar o freio das verborreias e levantar as comportas que libertam uma torrente de insultos e vitupérios.

Deixei de me preocupar com isto depois de ter compreendido que nem todas as pessoas desenvolvem o seu potencial. São pessoas limitadas. Quem age assim perde todo o respeito que a sua divergência – a qual é, à partida, tão legítima como a opinião antagónica – poderia merecer. Estas pessoas limitadas degradam a discussão, porque muitas vezes suscitam uma resposta emocional que vai fazer com que se crie um crescendo de insultos e provocações. Discutir nestas condições não leva a lado nenhum e apenas contribui para o agravar das neuroses de quem se envolve nestas discussões. Não aceitar que alguém tenha uma opinião de que se discorda é um acto de estupidez, mas comentar como se faz agora na Internet é de uma idiotia perfeita. Não é por alguém dizer que o autor de um texto num blogue é um ignorante que este autor vai mudar de opinião. De resto, que se ganha com isso – a não ser um alívio momentâneo da frustração sentida? Li uma vez uma frase exemplar sobre isto: Arguing on the internet is like taking part in the paralympics; you might win, but you’re still a retard. Não se ganha nada com este tipo de comportamento. Também não se perde, porque quem age assim fá-lo por não estar presente fisicamente diante do seu antagonista – caso em que provavelmente se absteria de empregar insultos – e não chega a sentir a reprovação que, no mundo real, as suas palavras mereceriam (por outras palavras: não se apercebe da figura de parvo que fez). Mas nada se ganha: é uma pura perda de tempo.

A Internet é maravilhosa porque permite que cada um tenha voz, mas ao fazê-lo expõe uma realidade de que muitos não se apercebem: que o mundo e as pessoas não são perfeitos. Algumas destas fazem questão absoluta de mostrar que são a antítese da perfeição. É por estes motivos que me abstenho de publicar alguns comentários aqui no Número f/: além de em nada contribuírem para a melhoria do blogue e a aquisição de conhecimentos pelos seus leitores, só serviriam para poluir o ciberespaço. E eu, no que toca a combater a poluição verbal internáutica, sou um verdadeiro tree hugger.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s