Alfredo Cunha

4 Alfredo Cunha 25abril

Hoje apanhei uma das maiores secas da minha vida. Como às vezes me dá para armar em bom samaritano, há dois anos tentei impedir um assalto que teve lugar mesmo à minha frente, numa caixa Multibanco perto de minha casa. O ladrão, infelizmente, escapou, mas eu ofereci-me desde logo como testemunha.

Hoje foi o julgamento. Esperei quatro horas até depor, o que ultrapassou em uma hora o meu recorde de secas deste ano, que era de três horas (estabelecido na Segunda-feira passada, enquanto esperava a minha vez para renovar o Cartão do Cidadão). Na audiência de julgamento, fui confrontado com o facto de o arguido ter um irmão gémeo. Apesar de estar convencido que o ladrão não era o arguido, mas o irmão, não pude afirmá-lo. Aquele pulha – qual deles fosse – criou o golpe perfeito. Oh well…

Não importa. A vítima vai ficar sem os seus €400 e o energúmeno vai ser absolvido por dúvidas. Normal. O que não é normal é que eu tenha sido a única testemunha, apesar de andar imensa gente na rua àquela hora. Restou-me o consolo de ter saído do tribunal a tempo de assistir à inauguração da exposição de Alfredo Cunha na Câmaras & Companhia.

E como são fantásticas as fotografias que Alfredo Cunha fez no dia 25 de Abril de 1974! Além do seu conteúdo simbólico intenso, que fez com que tornassem verdadeiras ilustrações da revolução (em especial aquelas em que se vê os retratos de Salazar e Caetano no chão, prestes a serem levados de onde estavam afixados), as imagens feitas por Alfredo Cunha são fotografia artística feita a um nível invulgarmente alto para reportagem e, tecnicamente, andam muito próximo da perfeição. Algumas são tão boas que podem deixar os digitalistas mais novos perplexos com a qualidade que era possível obter em 1974.

O que é quase assustador – pelo menos para mim – é que Alfredo Cunha tinha 19 anos no dia 25 de Abril de 1974. Que um jovem seja capaz de fotografar assim só pode querer dizer uma coisa: que A. C. nasceu dotado de um génio invulgar. Mais perturbador ainda, porém, é saber-se que Alfredo Cunha já tinha um portfolio de excelentes fotografias antes do 25 de Abril. Há pessoas assim: parece que nascem predestinadas à grandeza.

Tive o prazer e a honra de cumprimentar Alfredo Cunha (tão cedo não lavo a minha mão direita…) e trocar umas breves impressões com ele. Não há nada de pretensioso neste homem: é uma pessoa acessível, afável e bem humorada. Penso que é em ser-se possuidor destas características que reside a verdadeira grandeza. Conhecer Alfredo Cunha – tive de o subtrair, por breves instantes, à azáfama de autografar fotografias – foi possivelmente o ponto mais alto desta minha dedicação à fotografia, mas também me fez sentir minúsculo: ele, aos 19 anos, fez fotografias como as d’Os Rapazes dos Tanques, álbum com texto de Adelino Gomes que foi editado recentemente; eu, aos 50, só faço porcarias. Ora bolas…

M. V. M.

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