Cartão do Cidadão e outras histórias

IMGTrês horas. Três horas da minha vida irremediavelmente perdidas à custa da burocracia e do caos dos serviços públicos. O meu Cartão do Cidadão aproxima-se do fim do prazo de validade (o que significa, provavelmente, que, a partir do dia 15 de Maio de 2014, vai apodrecer e ser pasto de bactérias nocivas para a saúde pública), pelo que tive de o renovar. Já sabia o que me esperava, depois de no passado Sábado ter lido uma notícia no Público sobre a balbúrdia que atacou os serviços de identificação. Tudo se confirmou: quando cheguei aos serviços de identificação civil, na Rua Alferes Malheiro, eram 09h23. Os serviços estavam a funcionar desde as 9h00. Retirei a senha: o número que me foi atribuído era o 44 (ou, mais precisamente, o M0044, como se pode ver na imagem junta). Olhei para o quadro electrónico e descobri que o cidadão que estava nesse momento a ser atendido era o portador da senha com o número 5.

Foi uma seca de proporções épicas. Fui atendido às 12h25. Tudo para que me vendessem um rectângulo de plástico por €15,00, o qual me vai obrigar, depois de duas semanas de espera, a estar numa fila do tamanho de uma manifestação de professores anti-avaliação para levantá-lo. Rectângulo de plástico que, diga-se, nem sequer ficou como eu queria. Tudo por causa – evidentemente! – da fotografia. Os que têm cartão do cidadão sabem como é: tem de se estar defronte a uma máquina com uma câmara (suponho que seja uma Hasselblad de médio formato com um sensor CMOS de 50 MP e uma lente Zeiss) e olhar de frente. As pessoas que conceberam o actual cartão do cidadão são certamente daquelas que vêem muitos filmes de ficção científica e de espionagem, pelo que assumiram que, se a cara do cidadão estiver de frente, é mais fácil a um computador fazer o reconhecimento facial, de modo que as fotografias ficam sempre péssimas. E não é só por se ficar de frente: é que, depois de esperar três horas para ser atendido, ninguém fica com boa cara!

Deste modo, o titular de um Cartão do Cidadão fica sempre com ar de cadastrado. Pior ainda, porém, ficam os profissionais da fotografia, já que se está a perder a arte do retrato, tal como era praticada na Alvão ou na Gualtieri. Lembro-me bem de quando tinha de mandar fazer fotografias tipo-passe e do esmero e profissionalismo dos fotógrafos profissionais. Ao que parece, esses tempos estão a acabar. É evidente que nada pode ser feito para reactivar estes estúdios, cuja procura é hoje irrisória. Os tempos mudam, os hábitos também. Mas não deixa de ser uma tristeza que nem sequer possamos ter o o aspecto que queremos no nosso documento de identificação.

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Fotografia por Alfredo Cunha

Curiosamente, nem tudo foi assim tão mau nesta manhã de Segunda-feira: quando percebi que tinha várias horas de espera para passar, resolvi ir à Câmaras & Companhia. Ainda não tinha pago a revelação e digitalização do último rolo. Fiquei a saber que, na próxima Quinta-feira, 8 de Maio, a Câmaras & Companhia vai inaugurar uma exposição de fotografias de Alfredo Cunha, o fotógrafo do 25 de Abril. Como é evidente, vou estar lá. Mas há mais. Depois de uma curta conversa com R. S. D. a propósito dos meus problemas com a lente Olympus OM 28mm-f/3.5, este, num gesto tocante de amabilidade e confiança, prontificou-se a emprestar-me uma 28mm-f/2.8, para que eu possa compará-la com a minha f/3.5 – o que quer dizer que os leitores do Número f/ vão em breve poder deliciar-se com um teste comparativo. Stay tuned… e, entretanto, não deixem de visitar a exposição de Alfredo Cunha: ele é mesmo um dos grandes fotógrafos portugueses. As suas fotografias – que, até hoje, só vi em jornais, em revistas e na Internet – merecem bem uma visita.

M. V. M.

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1 thought on “Cartão do Cidadão e outras histórias”

  1. A maquina de recolha de dados do cartao do cidadao nao serve apenas para captar a famosa foto…ela tira as medidas do rosto do cidadao(um dos dados biometricos)..por isso tem que ficar de frente e com expressao neutra.Quanto ao tempo de espera …ja era de esperar.Temos mais de cerca 200 mil pessoas com nacionalidade portuguesa nos ultimos anos;embora o cartao cidadao seja obrigatorio por lei a partir dos 6 anos de idade..todos sabemos que o nif e obrigatorio assim que se nasce..e para o obter tera que ser pedido cartao de cidadao,assim como para viagens para fora do pais a criança tem que ter documento de identificaçao; renovaçao do cartao e efetuada de 5 em 5 anos independentemente da idade,ao contrario do b.i que era renovavel de 10 em 10 anos a partir dos 35 anos e vitalicio a partir dos 55 anos.Respostas para estas novas variantes? o mesmo numero de postos de atendimento em todo o paise o mesmo,a excepçao da regiao de Lisboa :o fecho de 4 serviços nos pontos mais fulcrais da cidade. Portanto ha que esperar horas a fio como nos anos setenta e oitenta !! lembro-me de estar no antigo arquivo de identificaçao na gomes freire ,lisboa …cerca de 7 h para fazer o meu bi.Mas para os nossos governantes e irrelevante as milhares de horas de trabalho que a populaçao perde nestas andanças!!!

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