Fazer bem à primeira

Les Frères, por Robert Doisneau
Les Frères, por Robert Doisneau

Tenho para mim que, quando alguém se dedica à fotografia, deve esforçar-se por que os resultados sejam imediatamente bons. A fotografia digital, ao trazer uma capacidade prodigiosa de armazenamento de imagens no cartão de memória (ou, no caso da nova Leica T, na memória interna), criou um hábito que considero vicioso: o de fazer muitas imagens até acertar numa que seja considerada satisfatória. (A sério: uma vez vi um sujeito a retratar outro usando o modo de disparo contínuo!) A edição de imagem, por seu turno, veio tornar os fotógrafos ainda mais relaxados, já que os leva a confiar no computador para corrigir eventuais erros cometidos no momento de fotografar. Quanto a mim, esta maneira de encarar a fotografia que o digital introduziu é o caminho mais directo para se passar a vida a fazer algo sem se perceber muito bem como as coisas acontecem. De resto, um erro é um erro, de pouco importando se é corrigível ou não.

Evidentemente, este imperativo de fazer bem à primeira é mais importante quando se usam rolos. Com a fotografia analógica não pode haver lugar a erros. Uma fotografia falhada é uma fotografia perdida. No passado, costumava confundir o facto de ver muitos jovens a comprar rolos com uma moda, uma vaga de entusiasmo retro, mas estava enganado: na sua maioria, esses jovens são estudantes que estão obrigados a usar aquele equipamento nas aulas de fotografia. Há uma boa razão para que isto aconteça: não há melhor maneira de aprender a fotografar que com uma câmara convencional. Como não há uma visualização da imagem num ecrã, a fotografia tem de sair bem à primeira, o que implica um conhecimento completo da exposição. Decerto, há sempre o fotómetro para dar uma ajuda, mas esta deve ser tomada com prudência, porque nem sempre a indicação do fotómetro leva a bons resultados (vou, a custo, abster-me de fazer metáforas comparando o fotómetro a um tirano malvado e o domínio da exposição a uma forma de luta de guerrilha contra ele…) e não previne que a fotografia possa ficar arruinada. Importa, por exemplo, além de saber como expor, saber para onde expor para obter os resultados pretendidos.

O digital perdoa mais, como é evidente, mas de maneira nenhuma desobriga a aprender a fazer bem à primeira. Decerto, há sempre a edição de imagem para acudir aos erros, mas, mesmo que se seja um indefectível do software de imagem, é sempre mais fácil corrigir uma fotografia tecnicamente bem executada do que uma completamente falhada. Numa fotografia que tenha as altas luzes estouradas é praticamente impossível recuperar o pormenor perdido, mesmo que se use o programa mais poderoso que existe. É uma fotografia perdida. Mesmo os controlos de tonalidade selectiva, com toda a sua extraordinária capacidade, produzirão resultados insatisfatórios se a fotografia for de tal maneira deficiente que as altas luzes surjam estouradas ou as sombras convertidas em negros. Em ambos estes casos a informação ficou perdida. Para sempre.

Um conselho que posso dar aos digitalistas é que usem o bracketing da exposição para determinar qual a melhor. Deste modo poderão seleccionar a exposição mais satisfatória e analisar os parâmetros da exposição e a área onde a câmara mediu esta última. Desta análise podem resultar conclusões que levem a um verdadeiro progresso, mas não é o mesmo que fotografar com uma câmara de rolo. Devem evitar-se as tentações que decorrem do facto de se poder fazer um número ilimitado de exposições e concentrar-se em fazer a melhor fotografia possível. Ah! – naturalmente, não podia faltar a recomendação de fotografar sempre nos modos de exposição avançados: A, S e M (ou, na linguagem da Canon e da Pentax, Av, Tv e M).

Eu sei o que isto parece. O leitor que encare a fotografia de modo casual poderá pensar que estou a complicar o que é simples; que o que importa é fazer fotografias, sendo a técnica (e o equipamento) pouco importante. Não é assim. Mesmo que queiramos abstrair de que a fotografia tem uma componente técnica importante, cada fotografia é um momento único e irrepetível. É um instantâneo para o qual devemos estar preparados. Esta preparação é tanto melhor quanto mais elevado for o grau de aprendizagem. Aliás, é neste instante decisivo que mais importa fazer bem à primeira: porque esse momento não se repete, é bom que tiremos todo o partido dele e o captemos nas melhores condições. Seria muito frustrante se essa fotografia ficasse perdida por não sabermos fazer bem à primeira.
M. V. M.

Advertisements

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s