Sobre fotografar ruínas (2)

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Outra questão é o propósito com que faço estas fotografias de lugares abandonados. A minha intenção não é interceder junto dos poderes públicos locais nem fazer um manifesto político denunciando o crime do abandono – o que, pelas razões enumeradas no texto anterior, me parece revestir-se de não pouca futilidade –, mas mostrar esse abandono como eu o vi, procurando transmitir a quem vê as fotografias o mesmo que sinto ao ver os edifícios. E o que sinto é, frequentemente, reverência pelo passado daquelas paredes. O que quero exprimir é, sobretudo, a transitoriedade: nada permanece; tudo acaba, tudo morre. Demorei muito tempo a escolher um título apropriado para o álbum do Flickr que vai incluir estas fotografias e optei por Lugares Mortos. Quis transmitir essa morte, esse fim da serventia que fora dada aos lugares que fotografei. Nada é etermo; na vida tudo tem um fim. Incluindo, evidentemente, os imóveis. Estes têm, enquanto usados (seja para habitação ou quaisquer outros fins) uma carga simbólica importante: representam a vida. Uma casa simboliza a vida de quem a habita, uma fábrica vale como sinal do labor e da actividade que nela se desenvolve. O seu abandono remete-nos para o passado, para a transitoriedade, para a morte. Gostava que as minhas fotografias traduzissem a antítese do que aqueles lugares foram, remetendo para a comparação entre o que se passava dentro deles e o que são agora. São lugares que a vida abandonou – lugares mortos, portanto.

É muito importante que estes lugares que fotografo tenham objectos que sirvam de indícios para se adivinhar a vida que lá havia. Por vezes é difícil transmitir este conceito por imagens, porque a destruição é de tal ordem que não restam vestígios da função que o imóvel havia servido; noutros, porém, tive a sorte de encontrar objectos que mostram que aqueles lugares foram em tempos sítios onde a vida corria. A ideia de transitoriedade, de que tudo passa, é-me muito cara; por vezes, ao passar por casas abandonadas, interrogo-me quem viveria ali e como seria a vida daquelas pessoas; e também o que lhes teria acontecido, determinando o abandono. Quando me deparo com uma fábrica, perguntava-me o que se fabricaria ali, quantas pessoas ali trabalharam. Estas perguntas podem desencadear especulações interessantes a quem tiver um pouco de fantasia. Gostava de conseguir levar as pessoas que virem as minhas fotografias a exercitar a sua imaginação. O que me interessa é esta transição entre vida e morte, entre passado e presente. O resto… bem, não será decerto a minha intervenção que irá devolver a vida àqueles lugares, nem será por ver as minhas fotografias que a Câmara Municipal do Porto declarará a posse administrativa dos imóveis que tenho vindo a fotografar. Aliás, muitos deles apenas merecem a retroescavadora e a picareta, por se terem tornado espaços insalubres e incapazes de provocar outra sensação que não seja a repulsa. Estes lugares não são passíveis de remissão: estão mortos, condição que é irreversível. Alguns vêem a sua morte adiada com um ou outro impulso de ocupação, mas a sensação de quem os percorre é a de desolação, daquela frieza inefável que nos percorre quando atravessamos lugares que a vida abandonou.

Contudo, mesmo nestes lugares é possível encontrar nostalgia e beleza. E onde há beleza há potencial fotográfico. Aliás, potencial fotográfico é coisa que não falta em ruínas. Não me surpreende nada que haja tanta gente a dedicar-se a este tema. Além de constituírem motivos interessantes, os edifícios abandonados proporcionam verdadeiras aventuras (desde que não se excedam os limites). Há sempre alguma coisa a transmitir nas ruínas, seja o esplendor (morto) de tempos passados, seja o interesse arqueológico. Por vezes, estes lugares impressionam: a fábrica da Companhia Portuguesa do Cobre, por exemplo, está (estava, porque já morreu) implantada numa área de 56,2 mil metros quadrados. É uma vastidão de que muitas vezes não suspeitamos. Numa imensidão destas, seria difícil não encontrar assuntos para fotografar. É um espaço tão grande e variado que lhe dediquei quase dois rolos inteiros e várias fotografias digitais. Fotografar aquela fábrica abandonada foi uma experiência de tal maneira entusiasmante que me fez desperdiçar negativo só pelo prazer de fotografar certas cenas – a mim, que sou particularmente parcimonioso no gasto de fotogramas.

M. V. M.

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