Novidades da indústria fotográfica: Leica T

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Quis a providência que, numa altura em que ando com pouca inspiração para escrever, a Leica viesse salvar-me de mais um dia sem postar um texto. Senhoras e senhores, eis a Leica T, ou mais propriamente a Leica Typ 701, a primeira CSC da Leica, acabadinha de lançar. Custa USD $1,850, o que deve querer dizer que vai custar €1.850,00 na Europa.

Esta câmara foi desenhada pela Leica em colaboração, segundo o palavroso press release que acompanhou o lançamento, com o departamento de design da Audi. Fiquei deste modo a saber que a Audi tem um departamento de design, o que, olhando para os automóveis produzidos pela marca de Ingolstadt, se torna difícil de acreditar: todos os Audi são iguais, distinguindo-se apenas pelo facto de uns modelos serem mais curtos ou mais altos que os outros. Eu compreendo que os Audi sejam desenhados para agradar a gente destituída de bom gosto, mas Walter de Silva, o homem que desenhou a berlina de quatro portas mais bonita de sempre – o Alfa Romeo 156 – e chefia o design da Audi, tem exagerado. O único Audi vagamente bonito é o A7, que mesmo assim é impossível de distinguir de outros Audi quando visto de frente. Não há dúvida que só os italianos sabem desenhar automóveis sedutores. Tanto assim é que o grupo Volkswagen, ao qual a Audi pertence, contratou um gabinete de design italiano, no caso o de Giorgetto Giugiaro – que, por azar, é o pior de todos! E pensar que a Pininfarina e a Bertone estão à beira da insolvência…

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Mas isto não é sobre automóveis; voltando à Leica Typ 701, esta é uma câmara que parece o fruto dos amores proibidos entre uma mirrorless da Samsung e uma Sony NEX. A estética lembra as Samsung, enquanto os dois comandos rotativos na parte superior assemelham-se perturbadoramente aos do sistema Tri-Navi – não há como os japoneses para inventar acrónimos ridículos – da Sony NEX-7. O que fundamenta os rumores de que esta câmara resulta da colaboração entre a Leica e a Sony, o que pode não ser mau de todo porque é sabido que a Sony fabrica os melhores sensores à face da Terra. Seja como for, existe a forte suspeita de que esta Leica seja, na verdade, uma Sony NEX-7 com outras roupagens. O que a torna num excelente negócio quando comparada com a Hasselblad Lunar, mas não deixa de ser uma Sony com um círculo vermelho.

Mais: as lentes que foram lançadas conjuntamente com a Leica T são uma prime 23mm-f/2 – o que não é mau, mas fica a perder no confronto com a Olympus 17mm-f/1.8, que é mais rápida e muito mais barata – e um zoom 18-56mm-f/3.5-5.6. Uma lente destas é simplesmente indigna da Leica. A Fuji faz um zoom genérico como este, mas pelo menos esforçou-se por oferecê-lo com uma abertura máxima f/2.8, o que é respeitável. Também não tem importância, porque quem vai comprar esta câmara será gente rica e ignorante que tem a vaga noção de que as Leica são boas, mas que a vai adquirir por ser um bem de Veblen – um daqueles bens que vendem tanto melhor quanto mais caros forem. Tal como, aliás, os Audi: os seus equivalentes da Volkswagen são, no mínimo, tão bons como os modelos da Audi, mas aos primeiros faltam-lhes aqueles quatro anéis entrelaçados… chega de Audis: recuso-me a discorrer mais sobre os automóveis que saem na «fatura da sorte».

O que a Leica T tem de inovador (para além de um módulo Wi-Fi que só pode interessar a idiotas) é uma memória interna de 16 GB, o que significa que pode dispensar o cartão de memória. Isto constitui uma poupança considerável, a juntar ao facto de o preço da câmara incluir o Adobe Lightroom 5. Também disponível a quem adquirir esta Leica está uma app, que traz o benefício de se poder controlar a câmara remotamente – o que pode dar jeito em muitas ocasiões, embora tenha dúvidas se alguma das câmaras que a Leica venha a vender será alguma vez montada num tripé.

Esta Leica tem outros momentos Vorsprung durch Technologie: cada corpo é construído a partir de um bloco de alumínio, que é trabalhado na fábrica de Wetzlar, na Alemanha. O que, à partida, assegura uma qualidade de construção que vai pôr a Leica quilómetros à frente da concorrência. Diga-se que, apesar da estética pouco inspirada (que queriam, vinda de uma colaboração com a Audi?), esta é uma câmara cheia de bom aspecto. Falta saber se a esta qualidade de construção corresponde um padrão igualmente elevado de qualidade de imagem. Não tenho motivos para duvidar que seja uma excelente câmara, especialmente se for confirmado que usa um sensor APS-C feito pela Sony. Dando de barato que é este o sensor, a qualidade de imagem está garantida; porém, muita dessa qualidade vai depender das lentes – o que, com os zooms lentos que estão anunciados, é motivo bastante para nos manter preocupados.

Esta apreciação não ficaria completa se não mencionasse que todos os comandos da câmara podem ser accionados tocando no ecrã. Ora, eu não tenho absolutamente nada contra o touchscreen. Pelo contrário, é das coisas mais práticas que alguma vez foram concebidas. Quando olho para a consola central de um Tesla Model S, pergunto-me por que razão não são todos os automóveis assim. É mil vezes preferível a botões. O touchscreen é um caso de progresso útil e real.

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Por fim, a Leica T não tem um visor integrado. Seria de esperar que tivesse um visor de telémetro, como as Fuji X, mas não. Felizmente há a opção de usar um visor electrónico externo, que tem a particularidade de ser o mais bonito que existe – especialmente se usarmos os da Olympus como termo de comparação. Contudo, não tenho bem a certeza de que este seja um argumento suficiente para me convencer a comprar uma Leica Typ 701. Pelo preço, bem podia adquirir uma Leica MP em segunda mão com uma boa lente.

M. V. M.

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2 thoughts on “Novidades da indústria fotográfica: Leica T”

  1. Algumas correções ao seu interessante “post” sobre a Leica T.

    1. Não é definitivamente fruto de uma colaboração entre a Sony e a Leica, muito menos uma NEX 7 com outra roupagem. Por favor! Quem conhece a Leica sabe que a colaboração que existem é com a Panasonic e não com a Sony. Mas que esta fica-se pelos modelos de câmaras compactas como a D-LUX 6, V-lux 4 e C-Lux. Nunca num novo sistema com a Leica T.
    2. O custo na Europa será de € 1550 corpo.
    3. Quando virem a qualidade de imagem da objetiva zoom, depois me dirão se esta ótica é indigna de uma Leica. De construção soberba, esta objetivas são de design alemão, e como tal apresentam uma qualidade de imagem ( canto a canto) impar na classe.
    4. O “unibody” da Leica T, é completamente produzido na fábrica da Leica em Famalicão. A maior fábrica da Leica que emprega atualmente 850 pessoas.

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