Mais alegrias e tristezas da fotografia digital

index

No último texto mencionei alguns dos benefícios de fotografar digital. Referi-me a mais uma experiência algo frustrante com a E-P1, mas esqueci-me de mencionar um problema que encontro quando uso esta câmara: há, nas fotografias feitas com a primeira Pen digital, uma falta de nitidez da qual só me apercebi verdadeiramente depois de usar a OM, com as suas lentes extraordinariamente nítidas e, sobretudo, quando uso rolos Ilford. Comparadas com as fotografias feitas com rolos, as da E-P1 chegam a parecer que têm problemas de focagem.

O problema de nitidez melhora um bocado quando uso a E-P1 com as lentes OM via adaptador MF-2. Contudo, o uso desta configuração não é isento de dificuldades: focar manualmente com a E-P1 não tem nada que ver com fazê-lo com a OM: enquanto esta tem um ecrã de focagem graças ao qual o difícil é falhar a focagem, com a E-P1 ou se foca à zona, posicionando o anel de focagem na hiperfocal, ou se usa uma imagem ampliada que implica carregar em botões e, consequentemente, perder tempo. Acresce que, quando se usa a focagem à zona, se perde o benefício da redução da profundidade de campo. A única forma prática de focar eficientemente com a E-P1 é usar a focagem automática. O uso de lentes manuais só é conveniente quando a fotografia não requer rapidez.

Hélas, rapidez não é a primeira palavra que me vem à cabeça para caracterizar a focagem automática da E-P1. Especialmente quando os motivos têm pouco contraste e a luz começa a escassear. É profundamente desagradável ver o cano da lente mover-se de trás para a frente à procura de um ponto onde focar e, depois, desistir vergonhosamente. Quando há boa luz e os motivos têm bom contraste, não há grandes problemas, mas quando as coisas correm mal, correm mesmo muito mal.

Contudo, nada disto significa que tenha perdido fé na fotografia digital. A minha opinião está certamente muito condicionada pela câmara que uso, que é uma mirrorless da primeira geração. É muito possível que, com uma câmara mais evoluída, não me sentisse tão entusiasmado com fotografia convencional e com a OM-2. Fotografar digital tem diversas vantagens: os resultados são imediatamente visíveis, não há necessidade de revelação e digitalização e os ficheiros têm, por regra, maior tamanho e resolução que os fotogramas digitalizados, o que lhes dá maior latitude na edição de imagem. E têm o benefício do equilíbrio dos brancos, bem como o facto de as longas exposições serem previsíveis e não uma arte que emprega fórmulas arcanas e uma boa dose de adivinhação.

O digital não morreu para mim. Consigo enumerar várias aplicações em que uma câmara digital é mais útil que uma convencional, embora de momento não me lembre de nenhuma. O problema é que, para ter resultados comparáveis aos da OM, precisava de ter uma câmara digital excelente. Essa câmara teria obrigatoriamente um requisito importante: um sensor full frame, de maneira a ter uma gama dinâmica decente (e mesmo com este sensor corrreria o risco de estourar as altas luzes). E não pode ser um daqueles blocos de alcatrão deixados a derreter ao calor que são as DSLR actuais, mas tem de ter um visor óptico como estas últimas. Neste momento só há uma câmara com estas características: a Nikon Df. Infelizmente, esta câmara não está ao meu alcance. Pelo menos por agora.

Os meus problemas, quando se trata de fazer equivaler o digital à qualidade da fotografia convencional, não terminam aqui. Em breve espero adquirir uma câmara (analógica) de médio formato. A qualidade de imagem destas câmaras é simplesmente fenomenal. Para a igualar no domínio digital, precisava de uma boa câmara de médio formato. A Pentax 645Z (imagem do topo), que é a mais acessível destas câmaras, custa 8500 dólares. Só o corpo. O melhor é nem sonhar. Mesmo as Mamiya, Leaf e Hasselblad digitais devem custar uma fortuna no mercado de câmaras usadas, mas há que fazer contas às cassetes (backs) e às lentes. Se uma destas câmaras em segunda mão for vendida com a cassete, o mais provável é que o sensor seja já obsoleto e que o seu desempenho seja ultrapassado pelas DSLR full frame actuais.

Estou, deste modo, num dilema: não quero renunciar ao digital, mas neste momento não posso obter os resultados que pretendo deste médio. As fotografias digitais que faço são piores do que as que a OM e os rolos que uso me possibilitam. Não sei como resolver isto – pelo menos enquanto não me sair o Euromilhões.
M. V. M.

Anúncios

3 thoughts on “Mais alegrias e tristezas da fotografia digital”

  1. Confesso que sou exigente, mas também sou daqueles que penso que não existe fotografias perfeitas, tal como câmaras ou fotógrafos.

    “Neste momento só há uma câmara com estas características: a Nikon Df ” – penso que existem muitas mais … um pequeno exemplo: Nikon D610, Canon 6D, Canon 5DMKII ou a Canon 5DMKIII.

    Também não concordo no idealismo do sensor full frame como sinónimo de maior gama dinâmica “decente”…. e ai temos a prova do sensor instalado na Olympus OM-D E-M1 – um bom exemplo de um sensor inferior aos full frame, mas mais abrangente no que toca a faixa/gama dinâmica.

    A ideia é não “balizar” a tecnologia… será o full frame o formato ideal para o Digital? eu penso que não, eu acho que terá que surgir um formato maior para as DSLR.

    1. Obrigado pelo comentário.
      Esqueceu-se de citar a parte dos “blocos de alcatrão deixados a derreter ao calor”, que são todas essas DSLR que referiu… e todas as outras, com excepção da Nikon Df ;)
      Chame-me picuínhas ou frívolo, se quiser, mas a estética é um factor que valorizo numa câmara – daí que a minha única opção seja mesmo a Nikon Df. E não ficaria nada mal servido com uma câmara equipada com o mesmo sensor que as profissionais da Nikon.
      Outro reparo: já há uma DSLR com um formato de sensor maior que o 36×24: é a Leica S. Fantasiar esta câmara acarretaria outras fantasias, como assaltar um carro blindado de transporte de valores (o que poderia trazer benefícios no imediato, mas mais tarde ou mais cedo teria consequências: provavelmente não me deixariam usá-la em Custóias).
      Sendo a minha E-P1 uma CSC da primeira geração, mau seria se os sensores não tivessem evoluído. Mas, pelas imagens que vou vendo na net, os problemas de gama dinâmica continuam a manifestar-se sob a forma de altas luzes estouradas. Nada que se compare à minha câmara, é certo, mas estão lá. O problema é que, quando se referem as melhorias do novo sensor, se está essencialmente a pensar nos valores ISO, porque é o género de argumento que convence.
      Abraço
      M. V. M.

  2. Apenas me referi em relação a faixa dinâmica no sentido em que o sensor detecta os valores de brilho que podem captados, sejam eles muito claros ou muito escuros,… os valores do ISO apenas podem ser meros indicadores dessa mesma faixa dinâmica.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s