Limites (a propósito do Photoshop CS e da edição de imagem)

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Ao contrário do que eu pensava, o Photoshop CS6 é excelente a corrigir distorções geométricas (as quais parecem ter-se tornado a minha bête noire, especialmente depois de descobrir, com choque e horror, que a OM 28mm-f/3.5 tem níveis assustadores de distorção de barril). Custou-me a localizar as ferramentas de correcção da distorção, mas acabei por encontrá-las – embora tenha necessitado de ajuda, devido à minha inexperiência com este programa.

As ferramentas de correcção da perspectiva estão no menu Filter da barra superior (presumo que exista uma versão portuguesa do CS6 em que o menu recebe o nome de Filtro) e acede-se a elas no submenu Lens correction. Foi isto que me induziu em erro, por ter pensado, ao descobrir este menu, que esta era uma ferramenta na qual se seleccionavam os perfis de lentes concebidas para o digital, mas no submenu Lens correction existe um separador chamado Custom. É aqui que aparecem as ferramentas de que  necessitam os que, como eu, usam lentes pré-históricas. Aqui faz-se tudo manualmente: podem corrigir-se as distorções da lente, as aberrações cromáticas, a vinhetagem, a perspectiva – nos planos horizontal e vertical –, o ângulo e a escala. Falta algo que o DxO Optics tem, que é a corecção da distorção anamórfica típica das grandes-angulares, mas isto serve-me de pouco porque o DxO recusa-se a abrir as digitalizações.

Estas ferramentas do Photoshop são extremamente eficazes, fazendo o seu trabalho de correcção sem adicionar novas distorções. Alguém poderá perguntar-se se usar ferramentas como estas não é corromper a pureza da fotografia convencional; a minha resposta é que não. Numa troca de impressões com R. S. D. na Câmaras & Companhia, aprendi que estas correcções podem ser feitas durante a ampliação, quer fazendo variar o ângulo da cabeça do ampliador, quer inclinando o plano onde se prende o papel fotográfico. R. S. D. tem uma filosofia com a qual concordo por inteiro: o seu limite, na edição de imagem, é aquilo que se pode fazer no ampliador. Quando se amplia um negativo, é possível alterar o brilho e o contraste, bem como corrigir a perspectiva. Não tenho razões para me recusar a fazer no domínio digital o que se pode fazer na revelação e na ampliação.

Na verdade, a minha maneira de pensar sobre as questões da edição de imagem mudou muito ao longo dos últimos três anos. Quando penso na maneira como me recusei a usar a edição de imagem nos primeiros tempos, sinto-me envergonhado por ter mantido pontos de vista tão pouco razoáveis. Até porque sempre usei um módico de edição, quer acentuando contrastes, quer recortando a imagem. Ora, ao fazer isto, estava a editar a imagem. O pecado estava cometido. De resto, onde está a pureza da imagem tal qual ela saiu da câmara – isto no caso da fotografia digital – se o processador da câmara introduz tantos parâmetros que, comparado com o ficheiro Raw, o JPEG saído da câmara mais parece ser outra fotografia do mesmo motivo?

Mesmo nos negativos digitalizados me parece legítimo recorrer à edição de imagem. Esta permite, tal como descobri quando comecei a usar o Lightroom 4 e o DxO Optics Pro 7, restituir o grau de controlo sobre a imagem de que necessita quem fotografa. Permite, por outras palavras, tornar a imagem naquilo que foi idealizado antes de premir o botão do disparo. Isto é uma dádiva para quem fotografa com intenções sérias. Decerto que o Photoshop levanta questões éticas, mas as suas fronteiras estão muito mais longe do que pensava há apenas alguns anos. Se um programa me faculta tornar a imagem naquilo que eu pretendia e não pude atingir por limitações do equipamento utilizado, por que não tornar a imagem em algo que corresponda à minha intenção fotográfica?

Há, contudo, um limite. O utilizador do Photoshop que vá longe demais, tornando a imagem em algo muito diferente daquilo que a lente viu, não pode pretender que o produto final é a realidade que a câmara captou. Neste caso estará a mentir. A fotografia é uma arte visual na qual é legítimo usar todo o tipo de ferramentas; o que não se pode é pretender que uma fotografia completamente manipulada é uma descrição da realidade que a lente viu. Quem o fizer está a transformar uma ilusão – toda a fotografia é uma ilusão – numa mentira. E eu sempre fui ensinado que mentir é muito feio.

M. V. M.

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