Relatório de actividades, Parte 3

Img - 037

Quem vir estas fotografias de lugares mortos facilmente reparará que têm uma característica comum: em nenhuma delas figuram pessoas. Um dos truques mais básicos para conferir interesse a uma fotografia de paisagem urbana ou arquitectura é incluir uma ou mais pessoas no enquadramento. O que faz sentido: ao providenciar um contraste entre animado e inanimado, a presença de pessoas confere dinamismo à imagem, o que faz com que a fotografia funcione. Além disto, a presença de pessoas no enquadramento ajuda a conferir aos objectos um sentido de escala, de dimensão, uma vez que podem ser usadas como termo de comparação. O importante, porém, é que uma fotografia que inclui pessoas mostra pulsação e vida.

Ora, é exactamente isto que eu não quero nas fotografias a que me tenho dedicado. Seria relativamente fácil incluir pessoas no enquadramento – quanto mais não fosse poderia ser eu mesmo, já que uso o temporizador da câmara –, mas o que eu quero traduzir em imagens é precisamente a ausência de vida. Incluir pessoas nestas fotografias seria contraditório, a menos que quisesse fotografar aqueles que encontram refúgios nos imóveis abandonados (o que não é o caso). Conferir vida a lugares como aqueles é uma contradição nos termos, porque aqueles lugares estão mortos. O facto de serem ocasionalmente ocupados não lhes confere vida, do mesmo modo que o facto de um cadáver existir no plano ontológico, enquanto realidade física, não significa que esteja vivo. Fotografar pessoas naqueles lugares faz tanto sentido como fazer aparecer uma modelo nua num anúncio publicitário de uma agência funerária.

Estas fotografias assinalam o fim de um vício em que sempre incorri – o de fazer fotografias para tentar agradar a outras pessoas. Isto reduz quem cria a uma condição servil, já que está a criar em função dos outros e não de si mesmo e impede-o de dar corpo ao que quis exprimir porque, em lugar de ser uma demonstração da maneira como quem cria vê o mundo, o que se produz quando se tenta agradar são fórmulas e compromissos. É evidente que uma fotografia é feita para ser vista e que é sempre agradável ganhar algum tipo de reconhecimento, mas condicionar a criação a essa procura do reconhecimento é um erro e, em última instância, torna o acto de fotografar estéril. No meu caso, descubro que sempre que fotografei foi de modo a que as minhas fotografias tivessem aceitação, o que é um disparate. Quero fotografar livre desse condicionalismo: se as pessoas gostarem, tanto melhor; se não gostarem, paciência. O que não seria agradável era que não compreendessem o que estou a fazer, porque tenho a noção de que muitas destas fotografias não comunicam por si mesmas e precisam de ser vistas no seu contexto.

Saber se este é o tipo de fotografia a que me quero dedicar em exclusivo enquanto tiver entusiasmo por este hobby é outra questão. Um dia cansar-me-ei de fotografar ruínas. Não é impossível que, mais tarde, considere que esta não foi uma experiência tão gratificante como a vejo agora. Até pode acontecer que dê o tempo que dediquei a estas fotografias como perdido, quem sabe. O que sei é que, hic et nunc, estou a gostar da experiência e quero levá-la ainda mais longe. Há muito de poético nos lugares mortos, muito de nostálgico e mesmo de doloroso e chocante. Fotografar naqueles lugares tem também qualquer coisa de aventura e transgressão que me agrada e torna o desafio ainda mais aliciante. Não vão ser fotografias extremamente originais – na verdade parece haver uma espécie de movimento de fotógrafos ruinistas em pleno vigor –, mas são uma variação agradável em relação aos temas mais que batidos a que me tenho dedicado. É evidente que isto não vai durar para sempre e vai inevitavelmente acontecer uma de duas coisas: ou regresso aos temas que me são familiares ou descubro outros novos (e já tenho pelo menos um em mente). Mas para já estou a divertir-me. O meu destino no fim-de-semana da Páscoa é uma fábrica abandonada. Não é bem o mesmo que ir para o Algarve ou para a Serra da Estrela, mas…

M. V. M.

Anúncios

1 thought on “Relatório de actividades, Parte 3”

  1. Eu também não gosto muito de fotografar pessoas, mas por uma razão mais simples. Mexem-se muito :)

    Sobre este tipo de fotografia, acho que será muito interessante o Entre Imagens desta semana dedicado a um tal de Paulo Cutrica (digo “um tal” apenas porque não o conheço de lado nenhum, nem nunca me foi apresentado…). O “trailer” que está no site é prometedor.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s