Relatório de actividades, Parte 2

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Na verdade, interrogo-me muitas vezes se os perigos de fotografar locais abandonados (e se eu piso uma seringa infectada? E se me aparece alguém mal intencionado? E se me deparo com uma ratazana?) valem realmente a pena. Para que faço estas fotografias? Excluindo o prazer de fotografar, há poucas razões para me aventurar por lugares como aqueles: as fotografias que estou a fazer vão certamente ser vistas apenas por um grupo restrito de pessoas e não vou concorrer a nenhum prémio. Não sou fotojornalista nem um fotógrafo reputado, pelo que a pergunta formulada mais atrás é inteiramente legítima.

Cada incursão por aqueles lugares abandonados é uma ocasião em que posso imergir-me completamente no acto de fotografar. Uma das minhas preocupações tem sido obter geometrias correctas, o que me obriga a procurar fastidiosamente a melhor posição possível para a câmara. É sempre difícil evitar que um rectângulo, como uma porta ou uma janela, se transforme num trapézio por força da distorção geométrica. Por vezes é impossível, por requerer posições demasiado altas ou impraticavelmente baixas. Mas não é de questões técnicas que quero escrever. Estas intervêm sempre e são importantes – talvez mais tarde mereçam um texto autónomo –, mas o objectivo destas fotografias não é serem perfeitas de um ponto de vista técnico. A minha intenção é exprimir as minhas sensações ao permanecer naqueles lugares, transmitindo-as através das imagens. Não sei se conseguirei – a minha procura pelo rigor formal e pela estética pode prejudicar esse objectivo –, mas estou a tentar fazê-lo.

Apesar de ficar absorvido pela fotografia, a minha mente não pára de vaguear pelas impressões que aqueles lugares devastados me causam. Ontem e hoje estive na Companhia Portuguesa do Cobre, um complexo fabril desactivado há muito. A vastidão daquelas fábricas e armazéns torna-se ainda mais evidente pelo vazio: é possível que, quando estivesse em laboração, a presença de máquinas, pessoas e materiais impedisse uma percepção plena das dimensões daquele complexo. Na verdade, mesmo quem passa pela Estrada da Circunvalação e vê o exterior da Companhia Portuguesa do Cobre não faz ideia do gigantismo daquelas instalações.

Fazer fotografias naquelas ruínas provoca-me uma sensação de pequenez. Sinto-me minúsculo perante a dimensão do que aquelas paredes albergaram. Há, nas fábricas abandonadas, uma dignidade quase solene que me deixa num estado próximo da beatitude enquanto as contemplo e preparo o próximo disparo. De pouco importam o chão pejado de detritos e as paredes revestidas de graffiti: aquele é um lugar morto, mas digno. Aquelas paredes, de um pé direito imponente a despeito do abandono, guardam dentro de si a lembrança de todos os que passaram por aquela fábrica: ali trabalhou-se, ali produziu-se. Ali centenas de pessoas moviam-se e viviam, porque o trabalho é vida. Nas casas abandonadas que pude fotografar há os vestígios de uma vida faustosa, dos confortos e dos luxos em que outrora ali alguém viveu. Não é difícil imaginar as pessoas que ali habitaram, com os seus hábitos burgueses feitos de tardes ensolaradas tomando chá servido por aias de província. Visitar aqueles lugares é certamente desolador, mas as arquitecturas daquelas casas preservam, a despeito do entulho e da desagregação, uma nobreza que me entra pelos olhos e pelos poros. Em nenhum outro lugar a ideia de morte se sobrepõe à de abandono como numa mansão abandonada. Há muito de poético e nostálgico na visão de uma sala vazia com lareira, mesmo que aquele espaço esteja em ruínas e pejado de detritos: estes últimos são como uma violação, uma vitória da profanidade e da impureza sobre um passado cheio de decoro e recato.

Curiosamente, já que mencionei os graffiti a propósito das fábricas (onde estas pinturas são omnipresentes), apercebo-me que estou em perfeita comunhão com quem os pintou quando fotografo lugares como aqueles: estou a fazer exactamente o mesmo que eles – a aproveitar o abandono para me exprimir criativamente. A diferença é que eles estão a criar a partir exclusivamente da sua imaginação, ao passo que eu estou a criar (se me é permitida a pretensão) a partir da realidade. As paredes vazias são, para eles, a tela sobre a qual vão desenvolver os seus motivos; para mim, são o próprio motivo. Mas estou também a fazer o mesmo que eles ao invadir aqueles espaços: incorro numa determinada forma de vandalismo, sendo um intruso em lugares que não me pertencem por não serem públicos. Esta pequena transgressão é parte da excitação que referi no texto de ontem. (Continua)

M. V. M.

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