Relatório de actividades, Parte 1

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Os meus leitores mais assíduos sabem que tive uma reacção mais que adversa depois de ver as digitalizações de um dos últimos rolos que entreguei para revelar (e digitalizar, evidentemente). Mais fotografias de automóveis. Mais fotografias ditas de rua (para as quais tenho, de resto, pouco jeito). Mais fotografias que apenas valem pela estética. Só fiquei verdadeiramente satisfeito com um retrato, uma fotografia de gotas de chuva sobre uma mesa de tampo metálico e outra de uma escadaria deserta. Senti-me farto de fotografar sempre as mesmas coisas e, concomitantemente, uma vontade de mudar drasticamente os meus motivos. Pensando bem, sinto agora uma grande satisfação por nunca ter sabido responder peremptoriamente à pergunta Qual é o teu tipo de fotografia preferido? Se tivesse uma resposta pronta, tal significaria que me teria confinado a um tema em particular; se fosse assim, já teria abandonado o hobby da fotografia por ter ficado completamente saturado de fotografar sempre as mesmas coisas e sempre da mesma maneira.

Deste modo, optei por um tema drasticamente diferente, mas que nem por isso pode ser considerado muito original. Fotografo agora motivos que só posso descrever e agrupá-los chamando-lhes lugares mortos. Procuro casas e fábricas abandonadas, centros comerciais e lojas desertos e paisagens sem vida. Ao contrário das fotografias que fiz no Verão passado, do centro histórico do Porto, não há uma única pessoa nestas fotografias que estou a fazer. Este é um elemento comum aos meus dois últimos rolos: não há um ser vivo no enquadramento. São fotografias de locais desolados e confrangedores. Referi antes que este não é um tema muito original: de facto há mais gente a fotografar lugares abandonados. Mas também há muita gente a fotografar automóveis, cenas de rua e surf. Ainda estou para encontrar algo que nunca ninguém tenha fotografado.

Tenho andado a fotografar nos lugares mais indescritivelmente sórdidos que se possa imaginar. Infelizmente, estes lugares mortos são mais abundantes do que se pode imaginar. Numa cidade que perdeu quase metade da população nos últimos quarenta anos, tendo perdido indústria, comércio e habitações, não surpreende que haja tantas fábricas que servem de abrigo a toxicodependentes, tantas lojas aferrolhadas e tantas casas com portas e janelas emparedadas. É o preço que se paga por políticas de ordenamento do território erradas, pela deterioração constante da qualidade de vida dos habitantes da cidade e por uma especulação imobiliária que, à custa de tornar o valor das casas e as rendas proibitivos, todos os dias empurra inexoravelmente milhares de pessoas para a periferia. Menos habitantes significa menos comércio, menos trabalho, menos casas habitadas e menos vida. Não é surpresa nenhuma haver tantos espaços desoladores no Porto.

É fácil entrar em alguns destes lugares: muitos estão abertos, o que facilita que sirvam de abrigo a toxicodependentes. Outros estão fechados, e nestes não tento sequer entrar. Não contem comigo para saltar muros, por muito absurdo que possa ser manter uma propriedade abandonada fechada a cadeado. Não o faço por princípio, embora perca boas oportunidades de fotografar. Alguns destes lugares são verdadeiramente abjectos – de tal forma que é absolutamente insensato entrar neles. Por vezes penso se não será uma loucura aventurar-me naqueles lugares. A sujidade é de tal ordem que torna muitos lugares inacessíveis. Ninguém no seu perfeito juízo arriscaria percorrer muitos dos lugares onde estive. Quando penso nisto, pergunto-me se fazer fotografia assim tem algum sentido: exponho-me a demasiados riscos. Ainda mais insensato, porém, é que a consciência destes riscos torna estas incursões por lugares abandonados excitantes. Por vezes tenho medo, confesso-o: o meu ritmo cardíaco acelera quando ouço o bater das asas de um pombo ou vejo um gato a esgueirar-se por alguma frincha, mas isto acrescenta excitação ao acto de fotografar naqueles lugares.

Lá dentro fico a sós com a excitação, os meus pensamentos, os medos e o desafio de procurar ângulos e perspectivas. Demoro imenso a expor cada fotografia: além do ritual da armação do tripé e da montagem da câmara neste, há a procura de motivos interessantes e dos ângulos ideais. Normalmente, tendo a procurar o maior rigor geométrico e simetria possíveis, porque os interiores das fábricas prestam-se, pela sua severidade de defuntos, a imagens grandiloquentes. Mas também procuro os vestígios que mostram o que aqueles lugares foram, porque tal ajuda a conferir algum sentido às imagens. (Se é que a palavra sentido é aplicável a estas incursões fotográficas…) (Continua)

M. V. M.

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