Semântica

Img - 004 (2)Geralmente, quando a maioria das pessoas alude ao acto de fotografar, usa a expressão tirar fotografias. Muitos, porém, preferem usar o verbo fazer: fazer fotografias. Em que ficamos? Qual é a expressão correcta?

Esta é uma questão que não tem resposta. Qualquer das respostas é tão válida como a sua oposta, porque tirar fotografias é diferente de fazer fotografias. Ambas são possíveis. Esta é uma questão que é mais que meramente semântica, porque se refere a acções diferentes.

Tirar fotografias é a expressão que se usa de modo mais comum, mas traz implícita uma ideia de casualidade. Tirar fotografias é aquilo que fazem os turistas. Fazer fotografias apela a uma noção de fotografia completamente diferente. Fazer uma fotografia implica, tal como a etimologia derivada do latim facere indica, um trabalho, um labor ponderado e cuidadoso. Começa na procura do tema e termina na publicação ou impressão.

Tirar fotografias qualquer um faz; pode até argumentar-se que hoje, com tudo o que é aparelho electrónico a ter uma câmara incorporada, qualquer um pode tirar uma fotografia. Por vezes, quando o acaso intervém, pode acontecer que uma dessas fotografias tiradas por alguém seja interessante, por surgir uma sombra ou um reflexo que conferem originalidade à imagem, ou por qualquer outro motivo que atraia a atenção de quem as vê, mas no geral estas fotografias são tiradas quem qualquer pretensão artística. O que não tem nada de mau ou condenável, evidentemente. Se virmos bem as coisas, a fotografia dita artística corresponderá a 1% de todas as fotografias – e é necessário escrutinar muito bem essa percentagem para encontrar excelência.

Tirar fotografias não tem qualquer tipo de exigência. Neste aspecto é uma experiência muito mais relaxada do que fazer fotografias: encontra-se um motivo merecedor de ser fotografado, dispara-se e já está. Para o que é, serve perfeitamente. Não importa se não foi tecnicamente bem executada, nem intervêm quaisquer considerações de estética, design ou harmonia: quem tira fotografias quer apenas recordar um determinado momento, nada mais. Não há nada de errado nisto.

Fazer fotografias, por seu turno, é uma tarefa complexa que levanta dificuldades desde o primeiro momento. Este momento inicial é o da escolha do motivo, daquilo que se vai fotografar. Importa encontrar um motivo e, uma vez ultrapassada esta etapa, logo surgem outros problemas para resolver. Há a escolha do ângulo, da luz e do momento. Quando se encontram as respostas, surgem de imediato outras questões: qual o melhor enquadramento? Como compor? Nesta fase há que fazer juízos sobre o que incluir ou excluir do enquadramento, qual a posição do motivo em relação aos demais objectos – i. e. a perspectiva – e este último problema obriga a lidar com a selecção do material fotográfico a usar. É neste momento que se escolhe qual a distância focal que deve ser usada e quais os valores de exposição que melhor correspondem à intenção fotográfica. Fazer fotografias implica, sobretudo, encontrar respostas para as questões que um determinado motivo suscita. Nem sempre é fácil. Fazer fotografias exige uma preparação que pode ir desde a exploração de um local em busca de motivos até ao transporte de material que permita acudir às diversas necessidades fotográficas que se vão encontrar.

Fazer fotografias significa que as dificuldades a transpor não terminam depois de premir o botão do obturador. Fotografar digital implica outro lote de dificuldades e de escolhas no computador, quando se edita a imagem; fotografar com rolos é uma tarefa ainda mais complexa, já que, à dificuldade na escolha da película mais apropriada, acrescem as dúvidas quanto à revelação. Estas últimas dificuldades são resolvidas quando se confia a revelação e a impressão ou digitalização a outrem, mas quando é o próprio fotógrafo a assumir o controlo total da feitura da imagem as questões são praticamente intermináveis.

Acima de tudo, porém, fazer fotografias é algo a que preside uma intenção fotográfica: a de exprimir uma ideia. Para quem levar a fotografia a sério, isto levanta questões de uma dificuldade tal que abrange disciplinas do conhecimento como a arte, a estética e mesmo a filosofia. A que nível pretende o fotógrafo exprimir-se: pretende que as suas imagens sejam uma emanação do mundo exterior ou buscar a excelência estética?

Sim, há uma diferença entre tirar e fazer fotografias. Esta não é uma mera questão de semântica nem uma construção conceitual de sabor escolástico. Embora sejam frequentemente usadas como sinónimos, tirar e fazer fotografias são actividades tão diferentes que se tornam antagónicas.

M. V. M.

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