Ensaio sobre a caligrafia

IMG_NEWEsta manhã estive de plantão nos Juízos Criminais do Porto. Não sei o que me passou pela cabeça para me inscrever nas escalas da Ordem dos Advogados: inscrevi-me nas oficiosas a conselho de dois colegas, que me fizeram ver as vantagens de ser nomeado defensor ou patrono oficioso, mas quanto às escalas, só me inscrevi por erro de avaliação: pensava que estar numa escala implicava apenas disponibilidade de tempo, mas enganei-me. Estar escalado implica a presença física num tribunal. Potencialmente seria uma seca – por implicar a minha presença entre as 9h00 e as 12h30 no tribunal –, mas não foi: fui chamado para uma leitura de sentença e um outro acto judicial. Pelo menos não posso dar o meu tempo por perdido.

Mesmo com estas interrupções no meu estado de disponibilidade, esta minha experiência numa escala deixou-me muito tempo livre. Tanto, aliás, que este texto foi manuscrito enquanto esperava uma eventual nova chamada. Estar na sala destinada aos advogados em escala teve uma consequência curiosa e, sob certos aspectos, altamente libertadora: passei – estou a passar, já que este texto está a ser manuscrito em tempo real – uma manhã inteira sem me sentar defronte a um computador!

Não foi apenas libertadora: esta experiência foi educativa. Fez-me estar a sós com os meus pensamentos, sem a interferência do Facebook, dos blogues de fotografia ou de quaisquer outras distracções informáticas. Serviu, por exemplo, para treinar a caligrafia. À custa do computador, quase perdi o hábito de manuscrever. (Esta palavra existe?) A minha caligrafia tornou-se hieroglífica e indecifrável, com inúmeros erros ortográficos devido à perda do hábito de escrever à mão.

O que me faz pensar nos vícios que o computador introduziu nas nossas vidas. Este é um assunto que tenho sempre em mente quando me apercebo da enormidade de tempo que despendo sentado ao computador, mas há ocasiões em que esta percepção se torna particularmente vívida. Esta manhã de plantão está a ser uma delas, mas ainda ontem, enquanto via a Odisseia na RTP2, discuti por que seria que esta série francesa tinha de ter tantas cenas de sexo. A pessoa com quem debatia afirmou que fazia todo o sentido: afinal de contas, que mais tinham os habitantes da Ítaca de Ulisses para fazer? «Não tinham Facebook» – retorqui.

A vida quotidiana neste primeiro quartel do Século XXI podia ser muito mais agradável se nos conseguíssemos libertar mais frequentemente do computador. Não quero com isto dizer que devíamos ser como o Telémaco da Odisseia à francesa – por piada, costumo referir-me a esta série como «a odisseia do truca-truca» –, ou que devíamos passar todos os dias em escalas da Ordem dos Advogados (até porque esta é uma incumbência exclusiva dos profissionais do foro pobres ou remediados), mas libertarmo-nos do computador de vez em quando pode ser extremamente benéfico. Nem que seja para treinar a caligrafia. Aplicando isto à fotografia (para dar um pouco de pertinência à inclusão deste texto no Número f/, que é principalmente um blogue de fotografia), uma maneira de nos libertarmos é deixar de lado esses pequenos computadores que colhem ficheiros de imagem a que chamamos «câmaras digitais» e usar máquinas fotográficas a sério, daquelas em que se metem rolos de película. Mesmo que fotografar com estas últimas já não dispense o computador, o seu uso é uma libertação – ou, se quisermos, uma liberdade provisória.

Com a dependência extrema do computador – abstenho-me a custo de escrever «escravidão» –, muitas pessoas adquiriram o vício de negligenciar as técnicas fotográficas, deixando para a edição de imagem a correcção de possíveis erros. Este é um vício que está a fazer com que se percam as boas práticas fotográficas em que importava fazer bem à primeira. A edição de imagem não é nada de perverso ou nefasto, mas equiparo a sua dependência à escrita no computador: com ambas, estamos a perder capacidades importantes. No caso da fotografia, estamos a perder uma componente importante da ars photographica, que é a técnica; no caso da escrita, somos bem capazes de nos apercebermos que já não conseguimos caligrafar. Há coisas que os maus hábitos induzidos pelo computador nos estão a fazer perder, mas esta perda vai muito mais longe do que o simples controlo da exposição numa máquina fotográfica ou pegar em papel e numa esferográfica para escrever à mão: o próprio relacionamento social está ameaçado pelo excesso de computador. Estamos a tornar-nos autómatos e a criar gerações que não saberão o que fazer das suas vidas se não tiverem à mão um computador, um smarthone ou um tablet. E, com isto, há hábitos e tradições veneráveis que se vão perdendo. O computador tem vantagens imensas – afinal de contas, temos o mundo inteiro ao alcance de um toque –, mas está a mudar as nossas vidas de uma maneira que nem sempre me parece saudável.

M. V. M.

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