Anja Niedringhaus

Fotografia por Anja Niedringhaus (1965-2014)
Fotografia por Anja Niedringhaus (1965-2014)

A notícia da semana passada em matéria de fotografia foi a morte da fotojornalista alemã Anja Niedringhaus, assassinada por um polícia afegão quando, ao serviço da Associated Press. acompanhava uma equipa que preparava as eleições no Afeganistão.

Que a profissão de fotojornalista em serviço no Afeganistão é arriscada, já todos sabemos. Temos um exemplo português em João Silva, mas este, ao contrário de Anja Niedringhaus, sobreviveu. O que me entristece é que tudo isto era absolutamente desnecessário. O Afeganistão vive em conflito desde 1979; desde então conheceu uma guerra que durou dez anos e uma nova invasão, desta vez pelas forças americanas, em 2001. Tudo isto era escusado: a invasão soviética foi motivada por questões ideológicas e de domínio territorial e motivou a pior resposta possível dos Estados Unidos: armaram os Mujahedin para combater os soviéticos e, com isto, vieram a dar um poder desmesurado aos Taliban e a Osama bin Laden. Os Mujahedin ganharam a guerra – mas a que preço? Com o domínio do país pelos senhores do ópio e com o crescimento do fundamentalismo instigado pels Taliban. Na maior manifestação de falta de senso comum de que há memória, os Estados Unidos decidiram deixar o país a ferro e fogo, sob o pretexto de ali se refugiar Osama bin Laden, o que se viria a provar ser uma falsidade. Tal como falsas eram as provas com que procuraram legitimar a invasão do Iraque em 2003.

Com um ambiente como este, aconteceu o que se esperava: o Afeganistão passou a viver em guerra. À guerra externa, falsamente legitimada pelo combate ao terrorismo – afinal bin Laden estava refugiado no Paquistão –, somaram-se as guerras internas entre o poder regular ténue da marioneta ao serviço da CIA chamada Hamid Karzai e o poder secular dos Taliban e as guerras entre os senhores feudais, lutando entre si pela divisão de um território cuja maior fonte de riqueza é a papoila do ópio e os pipelines que atravessam o Afeganistão. No meio de tudo isto o terrorismo acabou, tal como no Iraque, por se tornar muito mais mortífero e incontrolável do que era antes de os Estados Unidos terem lançado o combate contra ele. Se não fosse tão trágico, seria risível ver que os Estados Unidos nada aprenderam com o fracasso do Vietname e que aqueles que armaram e apoiaram por causa dessa estupidez chamada guerra fria se voltaram contra eles, atingindo os Estados Unidos no seu coração no dia 11 de Setembro de 2011.

Que ficou depois disto? O Afeganistão é hoje um país perigoso onde tentaram implantar uma mentira de uma democracia, como se tapassem um corpo cheio de sarna com um vestido de seda pura; um país onde há mortes por atentados quase diariamente e onde as vítimas civis excedem largamente as baixas militares; um país submetido, na prática, ao poder secular dos Taliban, sem condições de habitabilidade, sem autonomia e independência, sem outra educação que não seja a das mesquitas onde se propaga uma interpretação falsa e odiosa do Corão e onde o tráfico de droga e o poder dos senhores feudais não pára de crescer. Dizer que isto é uma democracia, sob cujo pretexto os Estados Unidos intervieram, não passa de cinismo – mas um cinismo a que os Estados Unidos já nos habituaram. Infelizmente. Se os Estados Unidos vivem uma paródia de democracia, num país que é essencialmente governado por um banco, como podem dar lições de democracia ao mundo?

Todas as mortes que vemos e ouvimos através das notícias se devem a este género de fundamentalismo, a esta arrogância de supremacia. Anja Niederinghaus é a prova trágica de que todos estes pretextos usados para invadir um país não passam de mentiras cínicas e odiosas e que os Estados Unidos nunca quiseram compreender – porque tal lhes serve para legitimar as suas políticas externas – que a violência apenas gera mais violência. Que legitimidade têm os Estados Unidos para criticar o fundamentalismo islâmico, quando foram eles os seus maiores instigadores no Afeganistão? Como podem eles pretender terminar com a violência e o terrorismo, se foram eles que os fomentaram e financiaram?

Este não era para ser um texto político. Era para ser sobre a perda de uma grande fotojornalista. Mas esta morte não aconteceu por acaso, por mero arbítrio: aconteceu num país a ferro e fogo, num país tornado perigoso e violento à custa da voracidade imperialista dos Estados Unidos, na sua pretensão sobranceira de serem os polícias do mundo – que não passa de uma das estratégias para implementar a sua hegemonia financeira. É trágico que tantos morram à custa desta voracidade. E, enquanto amantes da fotografia, a morte de uma fotojornalista que estava apenas a fazer o seu trabalho ainda nos parece mais trágica.

M. V. M.

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