Empatada

CorposCheguei à conclusão de que não quero fazer mais fotografia digital. O facto de ter provado a mim mesmo que posso fazer fotografias em condições de baixa luminosidade com a OM-2, mesmo não tendo maneira de saber instantaneamente o resultado da exposição (a OM-2 não tem, evidentemente, um ecrã para visualizar a imagem), significa que já não encontro qualquer necessidade de ter uma câmara digital.

A fotografia digital deixou de me interessar. As possibilidades da edição de imagem nada significam para mim: aprendi que a fotografia, para dar verdadeiro prazer, tem de ter um componente de desafio, que está em acertar com a exposição ideal antes de premir o botão do obturador. Recorrer ao computador para corrigir o que correu mal pode ser interessante, mas não dá gozo nenhum nem é a melhor maneira de aprender a fotografar. Ter as imagens rapidamente disponíveis não é importante, assim como não o é poder fazer milhares de fotografias numa só sessão. De tudo o que o digital trouxe à fotografia, a única vantagem real é o equilíbrio dos brancos – que não tem qualquer utilidade para quem fotografa quase exclusivamente a preto-e-branco.

Deste modo, tenho uma câmara digital empatada. Os números das fotografias que fiz nos últimos meses com a E-P1 são patéticos: doze em Dezembro de 2013, seis em Janeiro, oito em Fevereiro e zero em Março deste ano. Não é um número de fotografias que justifique ter uma câmara: estas estatísticas contam como se tivesse feito zero fotografias durante estes quatro meses. No mesmo período expus cinco rolos, o que equivale a quarenta e cinco fotografias por mês (se é que não me estou a esquecer de algum rolo). Não posso dizer que a produção digital tenha declinado: foi mais como uma queda a pique, comparada com a qual a queda de um cofre-forte atirado do alto do Empire State Building parece o leve voo de uma pena

Evidentemente, não é só uma câmara: são também as lentes. Talvez este seja o principal motivo do meu quase abandono da fotografia digital: a pancake 17mm-f/2.8 e o zoom 40-50 não são lentes que ajudem a desenvolver o potencial de qualidade de imagem da E-P1. As melhores fotografias que fiz com esta câmara foram tiradas com a OM 28mm a fazer as vezes de uma lente standard. Nunca consegui construir um sistema coerente e completo, como o que tenho com a OM-2: para esta, tenho todas as lentes de que alguém pode precisar, se não se dedicar a tipos de fotografia que requeiram lentes especiais ou distâncias focais muito particulares.

Poder-se-ia argumentar que ter uma câmara digital dá sempre jeito, mas isto não se aplica ao tipo de fotografia que faço. Não houve nenhuma sessão fotográfica em que me tenha arrependido de não ter a E-P1 à mão, por esta suprir alguma insuficiência da OM-2 que pudesse ter sentido. Deste modo, ter a E-P1 e o material com que a usava é como não ter nada. Esse material é o seguinte: uma câmara Olympus Pen E-P1; uma lente 17mm-f/2.8 com para-sol; uma lente 40-140mm-f/4-5.6; um adaptador MF-2 para lentes OM; um visor óptico Olympus VF-1; um flash Olympus FL-14; um cabo disparador electrónico; uma base de couro para a câmara. A decisão ainda não está tomada, mas o mais certo é que venha a pôr tudo isto à venda, provavelmente no eBay. Não pelo dinheiro que possa fazer com este material – além de eu não estar assim tão mal, não vou fazer nenhuma fortuna com esta venda de equipamento que pode ser considerado obsoleto –, mas porque não sou nenhum coleccionador de material fotográfico e este material tornou-se inútil. Para que quero ter uma câmara com que não fotografo? Está apenas a ocupar espaço.

Nem sequer posso dizer que vou ter muitas saudades se vender todo este equipamento, ou que me vai custar separar-me dele. Não vai. Chego a ter pena que seja assim: gostava que esta decisão fosse mais difícil, porque tenho a consciência de que fiz muita coisa de válido com a E-P1. Esta possível venda é a consequência de ter descoberto as capacidades de uma câmara SLR, que reduziu a E-P1 ao que verdadeiramente é: uma compacta com um sensor grande (mas não tão grande como isso). De resto, a possível (ou provável) venda permitir-me-á custear a aquisição de uma câmara analógica de médio formato, ambição que tenho vindo a alimentar desde há algum tempo mas que não está no topo das minhas necessidades. Há algures uma Yashica Mat 124 G à minha espera.

M. V. M.

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