O amigo tripé

Triopo-ME3232X8c_500Não sei quem é que disse que o tripé é o melhor amigo do fotógrafo, mas como não sou fotógrafo, não faço a mais pequena ideia de que essa pessoa estava a falar. No que me toca, os meus melhores amigos só têm dois pés, mas pronto, eu não sou fotógrafo e este pode ser um aspecto do relacionamento dos fotógrafos que me está subtraído. Deve ser interessante ter um tripé como amigo, mas assim de repente estou a ver uma data de objecções a essa amizade: sobre que é que conversam? Quando se sai à noite, quem paga as bejecas é sempre o fotógrafo. E, quando se tratar de sacar gajas, não estou a ver em que medida é que o tripé pode contribuir para o êxito das aventuras libidinosas. (Aliás, o mais provável é que o amigo do tripé – i. e. o fotógrafo – seja visto como um esquisitóide e não obtenha o sucesso pretendido.) Se precisarmos que um amigo nos desenrasque algum dinheiro, não será certamente o tripé que o vai emprestar. Aliás, posso assegurar-vos que, ao contrário dos animais de estimação, em relação aos quais o conceito de amizade é frequentemente usado (como em o cão é o melhor amigo do homem), o tripé nem sequer é boa companhia: experimentem atirar uma bola, a ver se o tripé a vai buscar. É o vais. E um tripé no colo nunca será um bom substituto de um gato.

O tripé não é amigo coisa nenhuma. É tão anti-social que, se o puserem à beira de outro, nem se falam: não trocam números de telemóvel, não combinam um café ou um jantar. Nem sequer – reparem bem! – trocam impressões sobre fotografia. De resto, estas conversas podiam não ser muito interessantes. O máximo que poderia acontecer seria vermos dois tripés à pancada por um ser montado (por assim dizer) por uma Canon e o outro por uma Nikon. Mas não – estes dois tripés hipotéticos ficam ao lado um do outro, muito quietinhos e caladinhos, sem sequer se olharem. Convenhamos que o conceito de amizade é um pouco mal empregue quando aplicado a um tripé.

Patetices à parte, o tripé é um instrumento incrivelmente útil. É certo que nada se compara a segurar a câmara com as mãos e que montar a câmara no tripé – para não falar em armá-lo – pode ser uma operação incrivelmente fastidiosa, mas há momentos em que não existe nenhuma alternativa séria ao seu uso. Hoje o tripé parece ser postergado pelos amantes da fotografia e visto como um objecto obsoleto. Com as câmaras digitais actuais a atingir sensibilidades ISO da ordem dos 51200 e mais altas, torna-se fácil encarar o tripé como algo dispensável, se não mesmo inútil, mas esta é uma ilusão. Todas as câmaras fraquejam acima de ISO 1600 e não há programa de edição de imagem que suprima o ruído; o que fazem é reduzi-lo, mas sempre à custa da nitidez da imagem. Para obter imagens nítidas e limpas de ruído em condições de luz escassa, não há nada que se compare a um tripé. Concedo, porém, que algumas câmaras digitais fazem um bom trabalho com sensibilidades ISO elevadas. E também admito que nem sempre é prático usar um tripé. Contudo, para as condições fotográficas mais difíceis, em que se exige absoluta precisão, o tripé é indispensável.

Ultimamente tenho vindo a redescobrir as vantagens do uso do tripé. As fotografias que tenho feito ao longo das últimas três semanas, que são predominantemente de interiores mal iluminados, exigem tempos de exposição extremamente baixos, tendo já usado exposições de 1/1 e 1/2. Com tempos de exposição tão longos, é impossível que as fotografias fiquem nítidas sem o tripé. Claro que podia facilitar a vida a mim mesmo usando rolos com velocidade mais alta, mas estou tão satisfeito com os Ilford mais lentos que não me apetece usar outros e, de resto, a vantagem de dois EV que teria com um rolo ASA 400 não seria suficiente para dispensar o tripé. Mesmo quando fazia fotografia nocturna com a E-P1, mantinha sempre o ISO no mínimo possível; não vejo motivos para agir de maneira diferente com a OM.

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Usar um tripé é um aborrecimento? Sim, sem dúvida. Gostava de ter um tripé com um motorzinho eléctrico que estendesse automaticamente as patas, porque armar um tripé é uma tarefa fastidiosa que consome imenso tempo. Até o transporte é incómodo, e a única coisa que me vale é as patas (ou o tripé propriamente dito) serem de fibra de carbono, caso contrário teria de juntar o peso à lista dos inconvenientes. Contudo, há benefícios em usar o tripé – especialmente quando o modelo que uso é de fibra de carbono e a cabeça é de esfera, podendo ser articulada facilmente em todas as direcções. Mais importante do que enumerar as vantagens técnicas, porém, é o facto de o tripé tornar a fotografia possível em condições debaixo das quais seria impensável fotografar. E usar o tripé obriga a pensar melhor a fotografia: com ele pode-se estudar demoradamente a composição, na certeza de que a fotografia vai ficar perfeitamente nivelada – o que nem sempre acontece quando se segura a câmara com as mãos. Esta pode ser uma vantagem inestimável.

M. V. M.

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