Mais questões do preto-e-branco

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Já narrei aqui que, na minha busca de um nível de expressão diferente, fiz um retrato – acho que posso chamá-lo assim – do meu sobrinho Guilherme. Contei, nessa altura, que queria compensá-lo da sua desilusão por eu ter feito um retrato da irmã e não ter feito um dele. É evidente que, se fiz um retrato da Maria Luís, não foi por intenção de ignorar o Guilherme: foi porque se me deparou uma excelente oportunidade de fotografar a minha sobrinha.

O retrato do Guilherme agradou-me. De tal maneira que resolvi encomendar uma ampliação, i. e. uma impressão feita no ampliador em papel de brometo de prata. Quando cheguei à Câmaras & Companhia e vi a fotografia, não fiquei muito animado: a proporção não era a mesma, os níveis de nitidez também não e o contraste fez desaparecer alguns pormenores do plano de fundo. Posso confessar que fiquei desiludido.

A minha desilusão, porém, só durou até comparar a ampliação com a digitalização que guardo no meu computador. Confrontando as duas imagens, a nitidez da digitalização é de facto mais pronunciada e os pormenores omitidos na ampliação estão presentes, mas a imagem digitalizada tem uma matiz azul que, não sendo evidente quando se vê isoladamente, se torna conspícua ao comparar com uma ampliação. Esta última é o verdadeiro preto-e-branco, o preto-e-branco puro. À medida que os meus olhos saltavam de uma imagem para a outra, a minha preferência pela ampliação ia crescendo. Num impacto imediato, a digitalização ganha: tem mais snap, mais apelo visual – mas tudo isto desaparece ao fim de alguns segundos.

A ampliação foi feita a partir do negativo. Embora seja possível converter uma imagem digital num negativo e imprimi-la com o ampliador – um processo incrivelmente complexo que é usado, por exemplo, por Sebastião Salgado quando fotografa digital –, a ampliação de um negativo é a forma natural de imprimir fotografias feitas com rolo. No meu caso, usei o Ilford FP4 Plus 125, que é um rolo de preto-e-branco puro. Há rolos que não são de preto-e-branco puro: foram introduzidos para permitir a revelação com os químicos usados para revelar negativos de cores. É o caso do Ilford XP2, mas o FP4 tem de ser revelado pelos processos do preto-e-branco e a sua gradação é uma escala de cinzentos. Como o ampliador transfere uma imagem gravada num substrato de haletos de prata para papel de brometo ou cloreto de prata, há uma continuidade que assegura a pureza dos tons.

Este tipo de preto-e-branco é extremamente difícil de reproduzir digitalmente. Os resultados obtidos com programas como o Lightroom e o DxO Optics Pro na conversão de ficheiros Raw não são o preto-e-branco puro, mas uma desaturação das cores que deixa sempre uma matiz residual azul. Se observarem o histograma nestes dois programas, verão sempre uma orla azul quando fizerem essa conversão. A única forma de obter um preto-e-branco puro é, num programa como o Photoshop Cs, converter o ficheiro numa escala de cinzentos e eliminar a informação de cor. O Cs6 faz isto. Quando se usa este procedimento, os resultados podem desiludir: a imagem parece perder vivacidade e ganhar um aspecto recesso e antiquado, com pouco contraste, mas esta é a única forma de converter para preto-e-branco com um mínimo de êxito. O efeito não é muito convincente, não superando uma ampliação feita a partir de um negativo de preto-e-branco puro.

Por seu turno, a questão da nitidez das ampliações explica o ethos dos Ilford, com as suas características de nitidez e microcontraste: estas são necessárias para assegurar que o máximo de informação é transmitido na passagem do negativo para o papel. Há sempre uma perda de nitidez – pelo menos quando comparada com a de uma digitalização – que é contrariada pela pela acutância do rolo, mas não inteiramente.

O facto é que, mesmo com a menor nitidez, as ampliações ganham sempre às digitalizações. Depois de ver uma e outra, a digitalização parece falsa e artificial. Isto não quer dizer, evidentemente, que vá encomendar ampliações de todas as minhas fotografias, o que só seria viável no caso de me sair o Euromilhões – mas põe-me, pela primeira vez, a pensar seriamente em usar o Photoshop Cs.
M. V. M.

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