Fotografia e género (a propósito do pior episódio do Entre Imagens)

Não!
Não!

Na Segunda-feira cometi um sacrilégio: não vi o Entre Imagens, essa série de documentários que passa na RTP2 e que já vai no quarto episódio. Ou melhor: vi durante cinco minutos e depois fui-me embora. Os dois primeiros documentários foram bem interessantes; aliás, foi o primeiro, que tinha por tema a fotografia de António Júlio Duarte, que, juntamente com a descoberta do espólio fotográfico de Vivian Maier, me despertou o interesse pela fotografia de médio formato. O quarto episódio, porém, não me suscitou qualquer interesse: uma senhora que fotografava árvores com uma compacta e depois transformava as imagens numa espécie de aguarelas espectrais no Photoshop levou-me a concluir muito rapidamente que não ia aprender nada com aquele episódio.

A única relevância deste episódio foi a de me levantar uma questão interessante: a fotografia tem sexo? Ou melhor: a fotografia tem género? Dito de outra maneira: será que as fotografias feitas por homens são diferentes das que as mulheres fazem? Há fotografias tipicamente femininas e fotografias tipicamente masculinas?

Esta questão é, provavelmente, um pouco fútil, mas penso que não deixa de ter o seu interesse. Não estou aqui a referir-me às capacidades técnicas: o que fiquei a pensar foi se é possível, analisando a linguagem estética de uma fotografia e sem saber quem é o seu autor, distinguir qual o género em que a fotógrafa ou fotógrafo se inclui. E fazê-lo abstraindo de estereótipos e preconcepções, os quais interferem nessa análise. Poderíamos pensar que as fotografias feitas por mulheres patenteiam mais sensibilidade e um sentido estético mais orientado para a beleza, mas nesse caso estaríamos a deixar que o juízo fosse contaminado por lugares comuns. Os homens também são capazes de transmitir sensibilidade e beleza, embora de uma maneira diferente.

Penso que, de uma maneira geral, é possível identificar o género do (da) autor (a) da fotografia a partir do seu conteúdo. As mulheres parecem procurar transmitir sensações de beleza e subtileza, ao passo que os homens, não sendo destituídos desses sentidos, tendem a explorar mais os elementos gráficos e as técnicas fotográficas que se obtêm usando a câmara. (O que não significa que as mulheres sejam menos aptas no uso de uma câmara, evidentemente.) Parece-me também que as fotógrafas tendem mais para o diáfano, para a leveza, e que as suas fotografias apelam mais à sensibilidade, suscitando interpretações mais intimistas, ao passo que os homens têm maior tendência para a abstracção. Claro que há excepções: é quase impossível, olhando para algumas fotografias de Vivian Maier sem saber quem as fez, dizer que são fotografias femininas.

No meu caso, baseando-me apenas na minha experiência de ver fotografias, penso que posso confirmar estes achados. Não posso dizer que acerto sempre, mas parece-me relativamente fácil identificar a autoria de uma fotografia quanto ao género da pessoa que a fez. Não quero, com tudo isto, dizer que as fotografias feitas por homens são melhores, nem o inverso. Apenas que são diferentes. Não há aqui lugar a marialvismos ou feminismos – não é essa a minha intenção.

Sim, por favor!
Sim, por favor!

Contudo, voltando agora ao assunto com que comecei este texto, há fotografias que simplesmente não me interessam. Fotografias de árvores transformadas em aguarelas espectrais no Photoshop integram esta categoria, tal como as fotografias de paisagens costeiras com arrastamento das águas, que são tipicamente masculinas. A senhora sobre a qual o episódio do Entre Imagens incidiu comete três pecados capitais: fotografa temas desinteressantes, usa uma compacta e transforma as imagens no Photoshop – mas, se tivesse sido um homem a fazer estas imagens, a minha reacção teria sido rigorosamente a mesma: teria desistido ao fim de cinco minutos, como fiz na Segunda-feira. Só aguentei cinco minutos por ter pensado que haveria algo mais interessante a ver, mas não: era apenas uma senhora que gosta de intercalar as frases com a expressão «tipo», como quem diz «fotografias assim tipo abstractas». No episódio anterior já tinha visto fotografias de José M. Rodrigues cujo tema era… tufos de erva. Como se consegue atingir notoriedade fazendo fotografias de árvores e de tufos de erva é algo que escapa completamente ao meu entendimento, mas o Entre Imagens vai mostrar obras bem mais enriquecedoras. A menos que o ministro Poiares Maduro decida vender a RTP a um consórcio chinês durante as próximas semanas, ou acabar com a RTP2 por não dar lucro, um dos próximos documentários é sobre nem mais nem menos que o meu fotógrafo português favorito, Daniel Blaufuks. Estou certo de que ver este episódio vai compensar todas as árvores e tufos de erva entretanto mostrados.

As fotografias mostradas são de Gabriela Albergaria (topo) e Daniel Blaufuks (em baixo)

M. V. M.

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