Nem de propósito

ng3132546

No texto de Quarta-feira aludi a uma tentativa de fotografar uma fábrica abandonada; no texto de ontem também me referi a essa tentativa que falhou, em parte por causa do meu receio de poder confrontar-me com as pessoas que estavam nesse local, o que não seria nada aconselhável. O que eu não referi foi que, no Domingo passado, voltei lá e mais uma vez não consegui fotografar: o perímetro da fábrica estava delimitado por faixas da Polícia Municipal, cujos agentes são, presumivelmente, ainda piores que os Securitas que gostam de nos proibir de fotografar. Aliás, já tinha passado por lá nessa mesma manhã e reparara que a terra estava revolvida, indiciando trabalhos de terraplanagem, o que me fez suspeitar do que ia acontecer. E, de facto, havia uma razão para que aquele perímetro estivesse restrito: no dia seguinte começaram os trabalhos de demolição da fábrica.

A notícia recebeu bastante divulgação, sendo mesmo tratada nos telejornais. O motivo? Aquele antro fétido e imundo era um local de tráfico e consumo de drogas pesadas e servia também de abrigo a inúmeros toxicodependentes. (O local foi também referido nas notícias como antro de prostituição, mas eu não consigo imaginar alguém a frequentar ou exercer a prostituição num lugar tão abjecto como aquele.) Os noticiários referiam-se àquele lugar como a «fábrica dos sabões», mas essa indicação não é verdadeira: onde existia uma fábrica de sabões (fabricavam lá o famoso S. O. Sabão, do qual os mais velhos poderão ou não ter algumas reminiscências) está agora instalada uma cooperativa de distribuição farmacêutica; os imóveis que estão a ser demolidos pertenciam a uma metalurgia denominada Aluminia, que cessou laboração há mais de dez anos.

Seja como for, sinto-me ambivalente quanto ao facto de não ter fotografado aquele lugar: é certo que posso ter perdido uma boa oportunidade de fotografar, mas não me expus à imundície daquele lugar. Os estabelecimentos daquela fábrica eram dois: um, que era aquele que me havia proposto fotografar, era descoberto, e algumas das paredes estavam parcialmente destruídas (as que restavam estavam cobertas de graffiti); o outro edifício mantinha a cobertura e as paredes estavam razoavelmente intactas. Era neste último, obviamente, que os toxicodependentes se abrigavam. Talvez «abrigavam» não seja a expressão mais apropriada: era mais como se morassem ali, uma vez que a Câmara Municipal ofereceu casas sociais às pessoas que frequentavam aquele lugar e apenas cinco aceitaram (o que é deveras estranho). Uma espreitadela para aquele local revelava de imediato toda a degradação daquele local: além do ar irrespirável, havia ainda todo o lixo que se espalhava pelo chão, o que me levava a interrogar-me como podia haver gente capaz de viver no meio daquela esterqueira de colchões imundos, trapos putrefactos, caixas de cartão desfeitas pela humidade e toda a espécie de lixo imaginável.

O vício da droga é capaz de reduzir as pessoas àquela abjecção. Eu não sei o que as bases fazem de tão poderoso que leva a que os seus consumidores aceitem deixar-se decair tanto e os faz trocar tudo por aquela sensação, que imagino fugaz, mas o certo é que faz os dependentes abandonarem tudo, incluindo a autoestima e o respeito por si mesmos. Eu não sou pessoa para condená-los, nem vejo por que alguém o deva fazer, mas perceber que havia gente que se submetia a viver naquelas condições, em lugar de me provocar repulsa – como aos habitantes do bairro que se situa nas traseiras da fábrica, do seio do qual surgiram alguns dos traficantes que enriquecem à custa dos toxicodependentes –, causa-me perturbação. Parece-me inconcebível.

Eu não tenho uma posição assertiva quanto aos toxicodependentes. Os meus sentimentos quanto a eles são ambíguos: são, possivelmente, vítimas de si mesmos, mas não quero analisá-los sociologicamente ou psicologicamente porque me faltam conhecimentos para tanto. Muitos inspiram-me compaixão, especialmente os mais jovens, mas não quero ser caritativo nem piedoso porque são pessoas como eu ou qualquer outra, logo capazes de julgamento e de responsabilidade. Já tive oportunidade de conhecer alguns; ao contrário do que imaginava, por força do culto das drogas que fazia parte de uma certa linguagem dos anos setenta, não vi neles pessoas cheias de sonhos que procurassem algo de libertador, mas sim gente tornada rude que é capaz seja do que for para adquirir os seus pacotes e oitavas – incluindo trair e roubar aqueles que haviam confiado neles. Não consigo sequer imaginar um grau de desprezo por tudo que leve uma pessoa a sujeitar-se a viver sem nada do que ancora um ser humano aos outros e à sociedade. Não sinto repúdio por eles e, como disse, não os posso condenar, mas mentiria se dissesse que sinto uma simpatia especial por eles. Alguns inspiram-me compaixão, mas que posso eu dizer quando são eles mesmos, com arroubos de dignidade que estão em total contradição com aquilo em que se tornaram, que recusam o gesto de quem os quer ajudar? Não são heróis nem vilões: apenas pessoas. Que, para se libertarem seja lá do que for, caíram num vício terrível do qual lhes custa horrivelmente se libertarem.

Sinto-me satisfeito por demolirem aquele local. Não por questões de higiene, nem por me desfazer do incómodo (que nunca senti), mas por saber que, pelo menos, tentaram dar condições condignas àquelas pessoas. Por ter a noção de que aquela demolição foi precedida de um esforço de integração e que aqueles que ali faziam a sua vida foram tratados como pessoas. Perante a magnitude de tudo isto, ter fotografado ou não torna-se irrelevante.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s