Originalidade

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A originalidade tem muito que se lhe diga. Tem pano para mangas, já que decidi começar este texto com um lugar-comum mais que batido. Ser original é algo que sempre procurei, mas é extremamente difícil.

Vivemos imersos em fotografias. É quase impossível encontrar um motivo que nunca tenha sido fotografado, e os que não o foram é por serem completamente destituídos de interesse fotográfico. Mesmo que se encontre um motivo que raramente tenha sido fotografado, há-de haver algures uma fotografia conceitualmente idêntica, ou pelo menos muito parecida. Deste modo é difícil fazer uma fotografia que seja absolutamente original – entendendo-se como tal uma que nunca ninguém tenha feito.

Nos meus primeiros meses de fotografia, fazia imagens parecidas com outras que via: eram referências, ou fórmulas de sucesso, não sei dizer ao certo. Depois, ao aperceber-me que este não era o caminho para a originalidade, decidi agir de outro modo, isolando-me tanto quanto possível de fotografias feitas por outras pessoas. Claro que isto era impossível, porque gosto de fotografia e de ver fotografias, em especial as dos meus autores favoritos; mas, quando via estas fotografias, tinha sempre a preocupação de não as imitar, de não fazer plágios.

O resultado do meu pseudo-isolamento não foi o que esperava. Fazer fotografia parece ser uma espécie de maldição: procura-se ser original e depois, quando se anda pelo Flickr e por outros sites de fotografia, descobrem-se centenas de fotografias iguais, ou pelo menos muito semelhantes, às nossas. Pensando bem, essa coisa de me isolar da produção fotográfica alheia também não é boa ideia.

Outra possibilidade seria ver todas as fotografias existentes e fazer diferente. Tal seria o equivalente a esvaziar o oceano com uma colher. Não é humanamente possível ver todas as fotografias que se fizeram e acompanhar as que se fazem. Nem mesmo se nos cingirmos à fotografia dita artística, excluindo as selfies e as fotografias a que os anglo-saxónicos chamam snapshots.

É muito difícil tirar da memória todo o acervo fotográfico; aliás, mesmo abstrair dele é difícil. Tenho a impressão que, mesmo inconscientemente, sempre que cada pessoa encontra um motivo e se propõe fotografá-lo, o compara mentalmente a outras situações fotográficas similares que têm guardadas na sua memória. Porque esta última funciona como uma base de dados que é sempre activada, queira-se ou não, quando se fotografa.

Não devia ser difícil ser original: existem tantos motivos com potencial fotográfico que as possibilidades seriam, em princípio, inesgotáveis. E, contudo, existe sempre a possibilidade de encontrarmos fotografias parecidas com as nossas. Isto, se é explicado pela profusão de fotografias, parece ilógico. Pensemos na música: aqui existem sete notas e cinco meios-tons. Apesar deste número limitado, as combinações são inesgotáveis: é certo que as notas podem ser combinadas em tons maiores ou menores e em diferentes escalas, mas o facto de o número de notas ser finito permanece. Claro que há imitadores na música, tal como os há na fotografia, mas é fácil ser original na música. Mais fácil do que na fotografia.

Talvez o melhor não seja procurar a originalidade, pelo menos se esta for entendida como a inexistência de outras fotografias idênticas. Procurar isto pode ser até um caminho para a esterilidade criativa. Talvez seja melhor procurar um estilo e uma linguagem próprios e desenvolver a expressão fotográfica em torno dessa linguagem e desse estilo – com a condição de estes serem originais, não já no sentido de serem únicos, mas no de serem a emanação da criatividade pessoal. Mas mesmo aqui surgem problemas, porque o que referi quanto à base de dados fotográfica também se aplica aos estilos.

Se calhar o melhor é não pensar muito nessas coisas e fotografar-se o que se gosta o melhor que se sabe.

M. V. M.

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