Realidade mais real

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Octavio Paz disse um dia que a realidade é mais real a preto-e-branco. Esta asserção pode parecer estranha, porque vemos o mundo – a realidade – a cores, mas merece que se pense nela alguns minutos. Acima de tudo, merece que se reflicta sobre ela situando-a no campo a propósito da qual foi proferida – a fotografia.

Na fotografia a cor funciona, as mais das vezes, como um elemento distractivo. É por isso que aquelas fotografias a preto-e-branco com um único objecto vermelho no enquadramento funcionam tão bem: o olhar é imediatamente atraído para a cor. Contudo, ainda não era exactamente a isto que Octavio Paz se referia: é que a cor tende a tornar as fotografias irreais. Elas predominam de tal modo na imagem que o seu conteúdo visual frequentemente acaba por resumir-se à própria cor. Exceptuadas composições simples que não ofereçam grande variedade visual, a cor faz abstrair dos demais elementos gráficos. Ora, quando vemos as coisas com os nossos olhos, vemos as cores – mas também vemos as formas, os volumes, os contrastes e as texturas dos objectos e a mente pondera todos estes elementos. A predominância da cor na organização da imagem leva a que as fotografias a cores tenham uma carga visual excessiva que lhe é dada pela própria cor, desviando a atenção de tudo o resto; a cor introduz, deste modo, um grau elevado de abstracção. Isto não acontece com a nossa visão, mas acontece nas fotografias.

Há outras explicações para isto. A fotografia a cores tende a favorecer imagens que exacerbam sensações como a alegria e a exuberância, ao passo que o preto-e-branco, sendo embora capaz de enorme expressividade, mostra uma realidade mais objectiva. Com o preto-e-branco, a alegria e a exuberância estão presentes na imagem se o estiverem nos próprios motivos. É este exagero que torna a fotografia a cores mais distante da realidade; é mais apta a construir ilusões, tal como o fizeram fotógrafos como William Eggleston.

Contudo, como nunca fui do género de aderir irrestritamente a uma ideia, penso que esta é uma noção que não pode ser generalizada. Com efeito, nem todas as fotografias a cores são garridas e não é em todas que esta distância em relação à realidade se verifica. O uso de tonalidades menos vivas pode resultar em imagens em que a cor não seja um elemento distractivo – mas a ideia de Octavio Paz continua maioritariamente verdadeira. Com o preto-e-branco vemos a essência das coisas, a sua verdade. Na maior simplicidade. Não é por acaso que se usa a expressão «preto no branco» como sinónimo de verosimilhança. Porque a realidade é simples, não ornamentada por tons garridos que a falseiam.

Isto é, evidentemente, um paradoxo. Como já referi, a nossa percepção engloba a cor, pelo que esta é indissociável da realidade. Contudo, na fotografia as coisas não se passam da mesma maneira. Aqui as cores não são fiéis à realidade. São uma ilusão ainda maior do que a ilusão que a fotografia, por essência, é. Quando vemos cores, não vemos o resto.

Isto explica, ou pelo menos ajuda a explicar, a sobrevivência do preto-e-branco. Sempre que há evoluções, a tendência é para que os procedimentos anteriores se tornem obsoletos e caiam em desuso, mas o preto-e-branco continua a ser usado. Muitos usam-no por ser uma moda, por haver uma enfatuação dos mestres da fotografia do Século XX que leva à convicção de que a fotografia – em particular a dita «de rua» – só é interessante se for a preto-e-branco. Outros usam-no pelas mesmas razões por que os desenhadores usam grafite sobre papel branco: porque o preto-e-branco mostra a essência dos objectos – as suas formas, os contrastes e os sombreados que ajudam a dar uma ilusão de tridimensionalidade à imagem. A cor sobrepõe-se a tudo isto e domina a imagem visualmente, com o efeito paradoxal de, existindo na realidade, fazer com que se abstraia desta.

Isto não significa, evidentemente, que a cor seja inimiga da fotografia. Há temas em que a fotografia não faz qualquer sentido se for usado o preto-e-branco. Já dei aqui o exemplo de fotografar um Ferrari vermelho, mas há muitos mais. No geral, a fotografia a cores resulta se a cor for o elemento fundamental da composição, sendo a estrutura da imagem secundária; contudo, o dito de Octavio Paz mantém-se verdadeiro na maioria das situações fotográficas.

M. V. M.

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