Como vai ser daqui em diante

Img - 029 (2)

Nunca esperei que receber as digitalizações de um rolo pudesse constituir uma desilusão tão grande como a que senti ao ver as do meu sexto rolo Ilford FP4. Não que as fotografias estejam más – não estando nada de particularmente brilhante, algumas estão bem conseguidas – ou que tenha havido problemas no laboratório (claro que não houve: como podia?), mas, ao vê-las, fui acometido de uma sensação de enfado e impaciência. Mais fotografias de automóveis. Mais fotografias de pessoas em enquadramentos cénicos. Mais fotografias de motas. Se tivesse feito fotografias de surfistas, a sensação seria certamente a mesma.

Cheguei à conclusão que estou farto destas fotografias. Não estou cansado de fotografar: estou cansado de fotografar sempre as mesmas coisas. Tanto que chega a parecer-me incompreensível que haja gente que considera normal e desejável que alguém se dedique exclusivamente a um determinado tema: como fazem estas últimas pessoas para não morrer de tédio?

Não é também o caso de ter deixado de gostar de automóveis, motas e pessoas – quer estas estejam a caminhar nas ruas, quer estejam a fazer surf e bodyboard. O que me aconteceu foi ter a percepção nítida de que tinha recebido mais trinta e seis fotogramas exactamente iguais aos dos rolos anteriores. Não com os mesmos motivos, evidentemente, mas iguais em conceito. Acima de tudo, são fotografias que não exprimem nada. Não são exactamente vazias, mas não me transmitiram nada. São fotografias que não dizem nada sobre mim: podiam ter sido feitas por qualquer outra pessoa. Não transmitem sensações, a não ser, eventualmente, algum prazer visual, porque já consigo fazer consistentemente fotografias com alguma qualidade: as pessoas reconhecem-me um bom sentido de composição e procuro ser original nos enquadramentos, mas estas fotografias não transmitem ideias nem são capazes de produzir uma impressão que perdure.

Eu quero fazer fotografias que mostrem o meu mundo interior e comuniquem com o intelecto do espectador. Quero fotografar emoções e sensações, mesmo que não sejam de felicidade e prazer. Quero, numa palavra, fazer fotografias que causem uma impressão. Não é fácil, e poderá implicar, quer uma longa aprendizagem – é um pouco como se começasse tudo de novo –, quer a ausência de aceitação. No fundo, vai ser aprender a exprimir ideias, o que é sempre difícil e vai certamente resultar em muitas fotografias falhadas e outras tantas incompreendidas. Isto implica mover-me por terrenos instáveis, abandonando a segurança de usar fórmulas – mesmo que sejam as minhas fórmulas, e não fórmulas universais – para agradar aos outros. A única pessoa a quem as minhas fotografias têm de agradar sou eu; pensar o contrário é ser apenas mais um imitador, mais um seguidor de modas e tendências. Possivelmente tornei-me demasiado ambicioso, mas não é isto que quero. Não quero fazer fotografias espectaculares nem belíssimas: quero fazer fotografias das quais se extraia mais alguma coisa do que uma sensação visual fátua.

Curiosamente, neste mesmo rolo estão duas fotografias encorajadoras. Uma é a das escadas de uma galeria comercial do Porto, um espaço quase abandonado que me causa calafrios e me deprime nas raras ocasiões em que por lá passo. Fiz uma outra tentativa num outro local dessa galeria, mas não correu bem porque tive de fotografar a f/1.4, o que deixou a imagem sem contraste e me fez falhar completamente a focagem. A primeira, contudo, pareceu-me promissora: é soturna, inanimada, fria e desolada – tal e qual o lugar que fotografei. Neste aspecto penso que consegui exprimir as minhas ideias, embora haja aspectos da fotografia que me desagradam esteticamente.

A outra é do meu sobrinho Guilherme. Este rapaz sofre de uma forma de autismo denominada síndrome de Asperger e tem uma propensão natural para o isolamento. É um rapaz que vive num mundo que é só dele, um rapaz especial que requer todo o amor que se lhe possa dar. Ele é irmão da Maria Luís, que eu retratara em Dezembro com algum êxito, apesar de ter fotografado de forma completamente espontânea. Pois bem, o Gui – é assim que lhe chamamos – sentiu-se preterido por eu não o ter também retratado e não se coibiu de exprimir a sua desilusão. A injustiça foi reparada: há duas semanas, fotografei-o. A fotografia está longe de ser perfeita de um ponto de vista técnico – mas transmite fielmente a maneira como o vejo e o que sinto por ele. Penso, também, que diz muito sobre a maneira de ser dele.

As duas fotografias que referi não são ainda boas fotografias, mas indicam-me o caminho que quero seguir. Eu quero que as minhas fotografias transmitam o que eu sinto diante do que estou a fotografar e que remetam para o interior de quem as vê. Não, não vai ser fácil – mas é a única maneira de fotografar que me parece válida. Isto pode implicar, como disse, um caminho longo que será muitas vezes incompreendido, mas é o único que vale a pena percorrer.

M. V. M.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s