As alegrias de não ser fotógrafo

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Sempre recusei autointitular-me de “fotógrafo”: fazê-lo parecer-me-ia demasiada pretensão. Alguns leitores já sabem o que penso sobre quem pode ser considerado fotógrafo (disse-o aqui) e mantenho essa minha opinião. Fotógrafo é quem vive da fotografia; é quem faz dela profissão. Claro que, se fosse um fotógrafo (pelo meu ponto de vista, a expressão «fotógrafo profissional» é um pleonasmo), tinha acesso a motivos que normalmente são vedados aos amadores; e, se o patrão fosse bom e generoso, podia usar o melhor equipamento do mundo e passava a vida a viajar. Seria uma vida boa, mas não ser fotógrafo e ser um entusiasta da fotografia tem as suas compensações.

A primeira delas é não estar vinculado a temas. Sendo um amador, não sou obrigado a fotografar temas em especial. Eu sei que o Enric Vives-Rubio, o Paulo Pimenta, o Rui Gaudêncio e o Adriano Miranda valem, cada um, cem M. V. M.’s (numa estimativa por baixo), e que, quando recebem ordens para fotografar determinado tema ou acontecimento, o fazem de uma maneira incrivelmente profissional e original, desenvolvendo aptidões para obter os enquadramentos mais imaginativos sem deixar de ilustrar o tema que foram encarregados de fotografar; simplesmente, a despeito de tudo isto, eles levam consigo uma carga – a da obrigação de fotografar.

E estes são fotojornalistas que provavelmente têm o trabalho dos seus sonhos, mas há ramos da fotografia profissional que implicam fotografar sem prazer, como os fotógrafos de casamentos. Deve ser inacreditavelmente difícil ser fotógrafo de casamentos. Implica estar várias horas a trabalhar quando toda a gente está a divertir-se e passar por várias horas de stress e concentração máxima. Conheço uma rapariga que é fotógrafa de casamentos e posso assegurar que não é nada fácil. À dificuldade – sim, porque fotografar um casamento é incrivelmente difícil – acresce a obrigação de apresentar fotografias de grande qualidade ao cliente, o que implica, além das horas na cerimónia, ainda mais tempo despendido a seleccionar e editar as cinco mil imagens que se fizeram. Os fotógrafos de casamentos chegam ao fim do dia extenuados, mas no fim ainda vão ter mais trabalho no Photoshop. Acreditem que é uma vida muito dura!

Eis a segunda vantagem de ser amador: eu não sou obrigado a fotografar. Dito de outro modo: não fotografo por obrigação. Se me apetecer, fotografo; se não quiser, faço outra coisa qualquer. Tenho essa liberdade e é inestimável. Mesmo quando saio para fotografar: se decidir que não me apetece fazer mais nenhuma fotografia, meto a câmara no saco e vou embora. Esta liberdade é preciosa e inspiradora, apesar de ser necessário ter algum método e disciplina: sem estes não pode haver progresso.

Ainda quando saio para fotografar, tenho a liberdade de fotografar o que me apetecer. Tenho, até, além da liberdade de escolher um tema, a de fotografar outro qualquer, se me apetecer. Tenho também a liberdade de, se quiser, impor a mim mesmo um determinado tema: hoje só vou fotografar um determinado tipo de motivo. E uma liberdade, associada à anterior, que descobri hoje: eu não sou obrigado a fotografar tudo aquilo de que gosto. Sou livre de me abster de fotografar motivos que costumo fotografar. No domingo, enquanto procurava interiores interessantes, passei por dois automóveis clássicos. Normalmente, tê-los-ia fotografado, mas não me apeteceu. Digamos que não estava para aí virado.

Esta liberdade é tão grande que só tem a limitação de, por usar rolos e pela despesa que eles implicam, ter de restringir o número de fotografias. Mas isto não é uma privação, nem um castigo: pelo contrário, torna-me mais atento e selectivo. Liberdade não é, nunca foi e nunca será, fazer aquilo que nos apetece. Liberdade é agir dentro dos limites, porque estes existem sempre. Simplesmente, mesmo se procuro fazer o melhor que posso e sei, não tenho de fazer fotografias para agradar a outras pessoas, não tenho a pressão de obter bons resultados – se estes surgem é à custa do entusiasmo, e não do dever profissional – nem o stress de passar horas a competir com outros fotógrafos para ter o melhor lugar possível na sala apertada onde o Sr. Ministro vai fazer a sua conferência. Também não tenho de distribuir cotoveladas pelos convidados da boda para chegar perto dos noivos. Fotografo só porque quero e porque gosto. Nada mau! Ah – e com a vantagem de não me tornar cínico quanto ao que faço e de o prazer de fotografar nunca esmorecer por causa das neuras que a profissão implica.

Imagino que, para se ser um bom fotojornalista ou um bom profissional da fotografia, é necessário devotar a vida à fotografia; como mero entusiasta, fico livre de prosseguir outros interesses e dedicar-me a outras actividades. Ser amador – que é como quem diz não ser fotógrafo – tem, afinal, mais vantagens do que parece. Admiro e respeito os bons profissionais, mas fotografar por prazer e porque se quer torna tudo mais interessante.

M. V. M.

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