Libertação

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A grande diferença que noto (pelo menos no meu modo de fotografar) entre a fotografia digital e a convencional é não precisar de editar as imagens desta última para obter os resultados que quero. Poderia pensar-se haver aqui uma tortuosa self-fulfilling prophecy, porque posso estar a convencer-me que gosto da aparência das fotografias feitas com a OM por serem isso mesmo – fotografias “analógicas” – e, por essa via, ter-me falsamente convencido que os rolos davam melhores resultados. Por outras palavras, que poderia estar a ser tendencioso. Não. A verdade é que, nas fotografias digitais, perdia muito tempo a editá-las (especialmente quando as convertia para preto-e-branco), ao passo que, com as fotografias que faço com os Ilford, não tenho necessidade de recorrer à edição. Os ficheiros Raw que convertia para preto-e-branco nunca ficavam satisfatórios à primeira: depois de aplicar a pré-definição de preto-e-branco, havia sempre muito que fazer: adicionar contraste, porque este nunca era suficiente; reduzir as altas luzes, que surgiam frequentemente estouradas; subir o microcontraste, para dar a aparência de maior definição; aumentar as sombras e os negros, para reduzir o aspecto deslavado e desinteressante das fotografias. O mais frequente era não ficar de todo satisfeito, embora tenha conseguido dar um aspecto aceitável a grande parte das fotografias. Em contrapartida, quando uso o Ilford FP4 – que, não obstante, me deu algum trabalho até aprender a expô-lo correctamente –, a imagem fica esplêndida. Não tenho qualquer necessidade de trabalhar a imagem no computador, salvo para a nivelar quando necessário e efectuar ajustes mínimos.

Quando, em Novembro de 2011, frequentei o workshop de técnicas fotográficas do Instituto Português de Fotografia, sofri a primeira de inúmeras desilusões ao aprender que a edição de imagem era uma necessidade, pois as fotografias digitais nunca têm um aspecto satisfatório tal como se apresentam uma vez descarregadas para o computador. Isto abriu-me a mente. Antes do workshop, tinha a noção (algo peregrina, admito-o agora) que editar imagens era falseá-las; era deturpar a realidade que a lente vira e a máquina captara. Um purismo que estava obviamente errado e que me mostrou que as deficiências que detectava na imagem não eram devidas a uma hipotética falta de qualidade da câmara, mas algo inerente ao formato digital. Não deve haver ilusões: nenhuma câmara digital (o formador do IPF, Carlos Machado, é um ex-profissional que usava uma Nikon D2) tem a capacidade de fazer boas fotografias tal como são descarregadas para o computador. A edição de imagem é um complemento do trabalho da câmara e é indissociável deste. Pensar que se podem obter grandes fotografias sem edição é apenas uma fantasia.

Excepto, evidentemente, se estivermos a usar uma câmara convencional e rolos de qualidade, como os Ilford FP4 e o Kodak Portra. Neste caso as digitalizações, se forem bem executadas, são tão boas que editá-las é uma perda de tempo. É estragá-las. As boas fotografias não resultam da edição de imagem, mas de uma escolha criteriosa dos rolos. Por esta altura o leitor estará a pensar algo parecido com: «e então a revelação não é a mesma coisa que a edição?» A minha resposta é: depende. No meu caso, não. As minhas revelações não incluem as técnicas de laboratório usadas para manipular a imagem, embora este seja um domínio fora do meu alcance. O que é certo é existe uma enorme sintonia de gostos e preferências estéticas entre mim e Raúl Sá Dantas, da Câmaras & Companhia, que é a única pessoa a quem confio os meus rolos, pelo que é natural que use tempos de revelação que favoreçam um pouco de contraste, mas decerto não usa unsharp mask, nem dodging ou burning.

Parecendo que não, fotografar assim é extremamente libertador. Sei de antemão que as fotografias vão ter um determinado aspecto e fico livre da maçada de passar horas no computador a melhorá-las. É pena que não seja assim na fotografia digital: a sua dependência da edição é uma prova de que o digital tem ainda muito caminho a percorrer.

M. V. M.

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