As TLR e os outros sistemas (2)

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Exemplo de SLR: a Olympus OM-2 do vosso M. V. M.

Existem outras diferenças fundamentais entre os dois tipos de câmara que analisámos no texto de ontem. Assim, o obturador das TLR é diferente do da maioria das SLR: nestas existem duas cortinas que abrem quando se carrega no botão do disparo para deixar que o feixe de luz atinja a película ou o sensor, enquanto nas TLR essa função é desempenhada por lâminas de metal. As cortinas têm um funcionamento ruidoso e potencialmente mais sujeito a inércia quando comparadas com as lâminas metálicas dos obturadores centrais das TLR, mas têm duas vantagens essenciais: permitem tempos de exposição mais curtos e podem ser comandadas electronicamente, o que faculta o uso de modos de exposição automáticos. Os obturadores centrais, por seu turno, autorizam o disparo sincronizado do flash em todos os tempos de exposição.

O facto de as SLR usarem uma única lente para conduzir a luz para o visor e para expor a superfície sensível à luz é, em si mesmo, uma vantagem de monta. Isto tem, desde logo, a consequência de estas câmaras serem mais pequenas e transportáveis, mas também a de evitar aquele que é um dos grandes problemas da TLR – a paralaxe, i. e. a divergência entre o eixo das duas lentes. O que a objectiva que transmite a luz para o visor não é, nas TLR, exactamente o mesmo que a objectiva que dirige a luz para o plano focal: há sempre uma ligeira diferença no plano vertical, que é tanto mais acentuada quanto mais próximo estiver o motivo. Além disto, as SLR permitem a montagem fácil de diversos tipos de lentes, ao passo que esta substituição apenas é possível nalgumas TLR e implica a mudança de todo o painel no qual as objectivas estão montadas. O mais comum, nas TLR, é as objectivas serem fixas, o que significa que, na maioria dos casos, o utilizador de uma TLR tem de se conformar com uma só distância focal. A mais comum destas é 80 mm, que fornece uma perspectiva próxima da dos nossos olhos.

Outra vantagem das SLR é, no caso de câmaras de película de 35 mm, o uso de rolos que, além de mais curtos (embora um pouco mais largos), têm um número muito maior de fotogramas: enquanto uma SLR faz vinte e quatro ou trinta e seis exposições, as TLR fazem entre sete e doze (ou vinte e duas, se a máquina for daquelas raras que aceitam rolos 220). O facto de os rolos 120 que as TLR usam serem mais compridos implica um mecanismo maior, pelo que a manivela usada para avançar o rolo e para rebobinar é verdadeiramente gigantesca.

Curiosamente, a vantagem das TLR está exactamente nos rolos que usam: os fotogramas são bastante maiores, pelo que há mais resolução e menos grão, e a profundidade de campo é mais diminuta. A imagem é, deste modo, de maior qualidade e o controlo da focagem pelo utilizador é também aumentado em relação às SLR de 35 mm. Seja como for, uma SLR é, a despeito dos compromissos na qualidade absoluta da imagem, mais versátil, podendo ser usada numa miríade de situações fotográficas que estão vedadas às TLR.

Leica MP, um exemplo de câmara de telémetro
Leica MP, um exemplo de câmara de telémetro

Vamos agora ver quais são as diferenças entre as TLR e as câmaras de telémetro, ditas rangefinders. Nestas câmaras existe um sensor que detecta os motivos de maneira a que seja possível focar. O visor destas câmaras é apenas uma janela que mostra os objectos como os vemos, sem fornecer qualquer informação sobre a focagem; o telémetro determina a distância em relação ao motivo como meio de auxiliar a focagem. Nestas câmaras a imagem surge duplicada, existindo uma imagem que é sobreposta à que surge no visor, obtendo-se a focagem nítida quando ambas as imagens estão perfeitamente sobrepostas. A vantagem das câmaras de telémetro está nas dimensões reduzidas do visor e do telémetro, o que possibilita a sua incorporação em câmaras de volume compacto (como, desde logo, as Leica da série M). Em relação a estas câmaras, as TLR têm a vantagem de ser possível determinar a focagem sem recurso a um sistema complexo como o telémetro e de mostrarem imediatamente a profundidade de campo, sem necessidade de duplicação da imagem para confirmação da focagem.

Curiosamente, as TLR e as câmaras de telémetro partilham a mesma desvantagem em relação às SLR – a paralaxe. Este fenómeno é inexistente nas SLR, já que nestas a imagem que vai ser captada é exactamente a mesma que a lente , sem quaisquer desvios. As câmaras de telémetro mais sofisticadas, como as Leica, têm um mecanismo de correcção da paralaxe, o que minimiza a divergência entre a imagem vista através do visor e a que vai ser registada, mas torna-as mais caras e complexas. De resto, o facto de a imagem do visor não coincidir com a da lente torna impraticável a fotografia de close-ups e a macrofotografia. Por fim, nem as TLR nem as câmaras de telémetro funcionam com lentes zoom: a sua montagem é impossível nas primeiras e, naquelas últimas, o seu uso é incompatível com o visor.

Depois de todos estes defeitos, o leitor poderá ser perdoado se entender que as TLR são câmaras obsoletas, limitadas e cheias de imperfeições técnicas; são grandes e difíceis de transportar, são complicadas de usar, gastam rolos que têm três vezes menos fotogramas que os de 35 mm, apesar de custarem o mesmo, e não dão grande flexibilidade ao utilizador – mas a sua qualidade de imagem é simplesmente espantosa! Naquele formato capta-se mais informação, há maior resolução e uma nitidez muito próxima de perfeita. Isto compensa largamente tudo o resto. Ah! – e esqueci-me, ao longo de todos estes textos, de mencionar um facto relevante: as TLR são lindíssimas. Não é o mais importante, evidentemente, mas a TLR é o tipo de câmara que ajudou a transformar a máquina fotográfica em objecto de culto. (Os fãs da iPhonografia nunca vão compreender isto.)

M. V. M.

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