As TLR e os outros sistemas (1)

Minox-TLR

Quem leu o texto de ontem sobre os diferentes formatos ficou a saber rigorosamente o mesmo sobre o que é uma TLR, tipo de câmara à qual tenho aludido frequentemente nos últimos textos. Muitos leitores já sabem, evidentemente, mas este texto, tal como o de ontem, tem por destinatários os não-iniciados, a quem o uso de expressões como «médio formato» e «TLR» pode causar alguma estranheza.

Então o que é uma TLR? Estas câmaras são por muitos consideradas obsoletas, mas têm algumas características que ainda hoje, decorridos oitenta e cinco anos sobre o lançamento da primeira, as tornam extremamente aptas. Tanto que as Rolleiflex, que foram as primeiras TLR, ainda são fabricadas, embora em séries especiais que devem ser caríssimas. (Aliás, as Rolleiflex foram sempre câmaras caras; a Rollei vendia uma versão menos evoluída – uma versão para o povo – denominada Rolleicord.) Também a Lomography produz estas câmaras, mas em versões kitsch, de plástico e de qualidade de imagem suspeita. As TLR são câmaras de médio formato que captam a luz em película 120 e apresentam a imagem na relação de aspecto 6:6, o que significa que têm maior resolução do que as câmaras mais comuns de 35 mm mas fazem fotografias de formato quadrado, o que torna a composição e o enquadramento muito problemáticos.

«TLR» é uma designação composta pelas iniciais de Twin-Lens Reflex. Com efeito, as TLR têm duas lentes objectivas. O motivo por que geralmente me refiro a estes instrumentos ópticos como lentes, e não como «objectivas», é o facto de esta última denominação só ser apropriada quando aplicada às lentes das TLR: estas é que são as verdadeiras objectivas, sendo o uso desta expressão para denominar qualquer outro tipo de lente incorrecto. Terminologias à parte, uma das objectivas – a do topo – tem a única função de dirigir a luz para o visor. A luz que atinge a lente superior entra na câmara e é desviada por um espelho colocado num ângulo de 45º, sendo encaminhada para o visor, ao qual se acede abrindo uma tampa no topo da câmara. O visor mostra a imagem através do topo da câmara, o que significa que esta se segura ao nível da cintura, e não ao nível dos olhos como a maior parte das outras câmaras. A outra lente objectiva, a inferior, é aquela que dirige a luz para a película na qual vai ser gravada a imagem, sendo idêntica, nesta sua função, à de qualquer outro sistema fotográfico.

Embora estas câmaras possam ser consideradas os calhambeques da indústria fotográfica, elas constituíram uma evolução considerável quando foram introduzidas. Até então, as câmaras não estavam equipadas com um visor que permitisse visualizar a cena a ser fotografada tal como ela era vista através da lente; tudo o que existia era a visualização directa das câmaras de grande formato, em que a imagem surgia invertida nos dois planos, ou visores externos, com os quais era impossível confirmar a focagem. A imagem que surge no visor das TLR mostra o modo como as lentes estão focadas, permitindo assim ao utilizador corrigir a focagem se necessário. Esta foi uma vantagem inestimável, que libertou os fotógrafos da técnica de focar à zona, a qual, além de ser de difícil aprendizagem, resultava com demasiada frequência em imagens desfocadas.

Analisemos agora em que diferem estas câmaras dessas outras reflex que são as SLR (abreviatura de Single-Lens Reflex) modernas: em ambas existe um espelho – daí o Reflex – inclinado num ângulo de 45º para levar a luz ao visor, permitindo ao utilizador ver exactamente aquilo que a lente está a captar, mas nas TLR a luz é conduzida directamente para o visor, enquanto nas SLR o feixe atravessa um pentaprisma antes de atingir o visor. A imagem que se forma quando a lente capta um motivo é, como muitos sabem, invertida nos dois planos; ora, o pentaprisma das SLR corrige totalmente esta inversão, pelo que a imagem que se forma no visor é exactamente a mesma que vai ser gravada na película ou no sensor. Nas TLR, a imagem que se forma no visor surge corrigida no plano vertical, mas invertida no horizontal (o que significa que, se o motivo for as letras AO, surge no visor OA). O que pode ser desconcertante. As SLR (aqui incluem-se, além das modernas reflex, as Hasselblad da série V e todas as suas seguidoras de médio formato) têm um espelho móvel, uma vez que, por apenas existir uma lente, o espelho é colocado entre a baioneta de montagem da lente e o plano focal; para que a luz exponha a película ou seja registada no sensor, o espelho tem de levantar para deixar que a luz atinja o plano focal. O que tem uma desvantagem séria, uma vez que o movimento do espelho causa um impacto gerador de vibração, o que pode repercutir-se negativamente na nitidez da imagem, especialmente quando se usam tempos de exposição longos. Nas TLR o espelho está fora do percurso do feixe de luz que vai expor o filme. Acresce que o mecanismo das SLR pode eventualmente falhar, mantendo o espelho levantado, o que obriga a desligar a câmara para efectuar um reset porque o visor fica completamente obstruído quando isto acontece. O levantamento do espelho no momento da exposição significa também que a imagem deixa de ser visível por alguns momentos, uma vez que o espelho bloqueia a luz que atinge o visor. Nas TLR a imagem é visível no momento da exposição.

Note-se que existem câmaras SLR sem pentaprisma, que são de médio formato tal como as TLR e, à semelhança destas, estão equipadas com um espelho e têm um visor amplo que se consulta pela parte superior; contudo, estas câmaras (entre as quais se inclui a Hasselblad 500 C/M) apenas têm uma lente e o espelho levanta para permitir a exposição da película, tal como nas SLR com pentaprisma. (Continua)

M. V. M.

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