O «médio formato» explicado aos não-iniciados

Hasselblad 500 CM, a câmara de película de médio formato com que todos os fotógrafos sonham
Hasselblad 500 CM, câmara de película de médio formato: o sonho de qualquer fotógrafo que se preze

Por vezes tendo a esquecer-me que muitas das pessoas que lêem este blogue não têm qualquer interesse por assuntos eminentemente técnicos e (ou) tecnológicos. A grande maioria das pessoas que se interessa pela fotografia enquanto manifestação de criatividade não quer saber dessas questões para nada. O que me parece certo. Afinal de contas, estas questões só são importantes para um número restrito de pessoas, não me competindo evangelizar os leitores para as maravilhas do equipamento fotográfico. Uma fotografia, de resto, pode ser tão boa se for feita com uma câmara de rolo como se o for com uma digital, sendo em muitos casos a diferença imperceptível.

O que importa, deste modo, é mesmo a fotografia, independentemente da maneira como foi feita e dos meios técnicos empregues. E muita razão há nesta asserção: quando aprecio uma obra, eu não me preocupo com a marca do martelo e do cinzel do escultor, nem com o fabricante dos pincéis e dos óleos do pintor ou com quem fabricou os instrumentos da Filarmónica de Viena. Contudo, na fotografia há resultados que só são possíveis com determinado tipo de equipamento. O mesmo noutros instrumentos usados em diversas artes. Admitir o contrário é tão errado como pensar que um cinzel é um cinzel, que uma tela é uma tela e um trompete é um trompete: há diferenças na qualidade e no desempenho e, no caso dos cinzéis e dos pinceis, há-os de diversos tamanhos, concebidos para usos específicos – mas, no essencial, as diferenças só são conhecidas por quem os utiliza na sua criação e não é importante, para o apreciador comum, conhecer essas particularidades do trabalho do criador. O mesmo como o fotógrafo e a fotografia: o equipamento fotográfico é de uma variedade enorme que não é nem precisa de ser conhecida pelo espectador. O que não significa – até porque o Número f/ é lido por pessoas de mente inquisitiva – que seja bom que as pessoas que lêem estes textos devam considerá-los arcanos e obscuros.

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Câmara de grande formato: Linhof Technika

Nos últimos textos referi-me por diversas vezes ao «médio formato». O que é isto ao certo? Vou tentar explicar isto aos leigos, esperando que os iniciados me perdoem algum excesso de simplificação em que possa eventualmente incorrer. A fotografia, como sabem, é a captação da luz reflectida pelos objectos e sua gravação num suporte, que pode ser uma película ou um sensor digital. O suporte onde a luz é fixada, formando a imagem a que chamamos fotografia, divide-se em diversos formatos, consoante a área de cada fotograma: o grande formato consiste em películas de dimensão 102×127 mm ou maiores, as quais são inseridas na traseira de câmaras como as Linhof, também elas de grandes dimensões (tanto que, normalmente, só podem ser operadas com o uso de um tripé). Estes tamanhos justificavam-se pela necessidade de fazer grandes impressões numa altura em que ainda não existiam os ampliadores, que aumentam a dimensão da imagem na passagem da película para o papel. Os fotogramas de grande formato da dimensão que referi (102×127) usam uma relação de aspecto quase quadrada, à qual se convencionou designar 4:5, por ser esta a sua área quando medida no sistema imperial, i. e. em polegadas: 4”×5”.

No extremo oposto está aquele ao qual nunca se convencionou chamar «pequeno formato» (esta designação não existe), que é o da película de 35mm, que usa fotogramas com uma área de 36×24 mm e apresenta as imagens com uma relação de aspecto rectangular (3:2). Este formato tornou-se o mais comum por permitir o fabrico de câmaras pequenas, leves e facilmente transportáveis, como a Olympus OM-2n deste vosso escriba ou as Nikon F, as Canon AE, as Pentax MX e, sobretudo, as Leica. Escrevi “sobretudo”, não por algum fetiche pela Leica (que é muito comum entre a comunidade fotográfica), mas por ter sido esta a marca que inventou, pelo génio do Dr Oskar Barnack, o formato 35 mm. Mais tarde tentaram-se, ainda na época pré-digital da fotografia, formatos mais pequenos, como o 110 e o APS, mas os resultados foram sempre uma perda substancial de resolução e qualidade da imagem. É que estes factores estão intimamente ligados à área de captação da luz e variam na directa proporção desta última: de um modo geral, quanto maior for a área de captação da luz, maior será a resolução e a qualidade da fotografia.

Fuji 645, câmara de telémetro de médio formato

Entre estes dois formatos está o médio formato, que é aquele que as câmaras TLR a que tenho vindo a aludir nos últimos dias (amanhã veremos o que isto é) utilizam. No médio formato, o fotograma tem as dimensões de 6×6 cm, 6×4,5, 6×7 ou 6×9 cm, sendo o primeiro usado nas TLR como as Rolleiflex e as reflex das Hasselblad, entre as quais se incluíam as primeiras câmaras usadas nas expedições lunares da NASA, e os restantes em câmaras como a Fujifilm 645 (v. imagem), a Mamiya 6, a Pentax 645 e outras. A película é carregada através de rolos, tal como nas câmaras de 35 mm, e não através das caixas (a que alguns ainda chamam chapas) empregues pelas câmaras de grande formato. As câmaras de médio formato apresentam as fotografias na relação de aspecto quadrada (6:6) ou rectangular (6×4,5, 6×7 ou 6:9) e usam rolos 120, em contraste com os 135 das câmaras de «pequeno formato».

Com o advento do digital, estes formatos permaneceram. Há câmaras digitais de formato 35 mm (às quais se convencionou chamar full frame) e de médio formato, sendo contudo mais raras as de grande formato. Com efeito, a qualidade dos sensores de médio formato da Phase One, Mamiya Leaf e Hasselblad é de tal maneira elevada que dispensa o uso de câmaras de grande porte, embora câmaras como as Sinar e as Linhof sejam usadas para as aplicações mais críticas em matéria de qualidade da imagem. As variações em relação aos padrões tradicionais ocorreram sobretudo nos pequenos formatos, existindo uma litania de sensores com área inferior ao 35 mm para uso em câmaras compactas. Tal como na película, a qualidade da imagem está relacionada directamente com a área, sendo os sensores maiores capazes de mais resolução, menor ruído, menor profundidade de campo e uma gama dinâmica mais ampla.

M. V. M.

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