A doença ataca de novo

Rolleiflex_cameraÉ uma doença, eu sei; não sei é se é benigna ou maligna, porque os sintomas são variáveis e os efeitos inconclusivos. O que é certo é que esta minha doença se manifesta por, sempre que vejo ou leio seja o que for relacionado com fotografia, quer seja a biografia de um fotógrafo ou apenas fotografias, pensar logo em equipamento. Se for uma biografia, não consigo deixar de pensar que material usava o fotógrafo; se for uma fotografia, a primeira coisa que penso (vá lá: a primeira coisa que penso depois de ter formulado o meu juízo sobre ela) é qual a distância focal usada; em alguns casos, tento adivinhar a exposição. No albumzinho de Robert Doisneau que comprei há alguns meses, fiquei a saber que ele usou uma Leica da série R; ao ver fotografias de Vivian Maier – especialmente os auto-retratos –, descobri que ela usou uma TLR para a maior parte das fotografias conhecidas. Tal como Robert Doisneau, na sua fase inicial.

E que fotografias estas! Há, na generalidade das fotografias feitas com câmaras TLR, uma qualidade absolutamente soberba: não são demasiado nítidas, nem são vagas e imprecisas; têm a nitidez ideal. A profundidade de campo é invariavelmente excelente – estas são, para todos os efeitos, câmaras de médio formato – e a relação de aspecto das fotografias, embora não seja a minha preferida (sou um incondicional do 3:2 e não aprecio fotografias quadradas), providencia composições completamente diferentes do que é habitual.

Com tudo isto, desenvolvi um novo objectivo: fotografar com uma TLR. Não pelo seu apelo retro, nem por saudades de tempos que não vivi – embora tenha sido submetido a sessões fotográficas com uma TLR pelo meu avô paterno, que tinha uma cujo destino desconheço –, mas para fotografar com rolos de médio formato. Isto pode abrir-me novos caminhos, pois poderei lidar com uma profundidade de campo espantosamente reduzida, terei mais resolução e, sobretudo, um visor absolutamente gigantesco que vejo de cima, em lugar de espreitar por uma janela minúscula (claro que o visor de uma SLR é o melhor que existe, mas será uma experiência diferente).

É evidente que não vou a correr, feito um tolinho, comprar a primeira TLR que encontrar à venda. Fotografar com uma câmara destas implica algumas dificuldades. Os rolos são 120, o que significa que só terei entre doze e quinze exposições de rolos mais caros que os 135. Se tenho de pensar muito bem as fotografias com a Olympus OM, com uma TLR a escolha dos motivos vai ser absolutamente crítica. Depois há as dificuldades ditadas pela natureza do sistema TLR: a primeira é que a imagem surge invertida no plano horizontal. Outra, que implica cuidados ainda maiores, é a paralaxe. A imagem obtida pelo visor é captada por uma lente e existe uma segunda lente, que é aquela à qual, de modo verdadeiro e próprio, se chama objectiva, que vai colher a imagem. Com motivos distantes é fácil enquadrar, mas quando os objectos estão próximos pode estar a cortar-se parte da imagem por causa do deficiente alinhamento entre as duas lentes. As Yashicamat (pelo menos) têm linhas gravadas no visor que prevêem margens nas partes superior e inferior, de modo a que se possa enquadrar com alguma precisão, mas este é um problema para o qual terei de estar muito atento. De resto, a ergonomia e os controlos destas câmaras são completamente diferentes das SLR, o que pode requerer alguma habituação – tal como o seu volume e a maneira de transportar: esta não seria a câmara que usaria nas longas caminhadas à procura de motivos interessantes. E fotografar com a câmara à altura da cintura também deve ter que se lhe diga, mas tem uma vantagem considerável: é possível fotografar pessoas mais discretamente do que com uma SLR.

O que poderia eu esperar de uma TLR, uma vez superadas as dificuldades? Numa palavra – qualidade. Não é que esteja descontente com o que a OM e as suas lentes são capazes quando usadas com rolos Ilford, mas é possível ir ainda mais longe. Claro que as pessoas que me virem na rua a fotografar com uma TLR vão pensar que tenho cem anos de idade ou que vivo no passado (ou as duas coisas), mas este é um preço insignificante a pagar pela qualidade do médio formato.

Claro que tudo isto implica uma decisão que ainda não está tomada – até porque a TLR não é a única opção para câmaras de médio formato. Só com o tempo poderei decidir. O que sei, por agora, é que fiquei extremamente curioso quanto ao médio formato e que não vou sossegar enquanto não fizer ao menos uma experiência. O que é decerto mais um sintoma de doença.

M. V. M.

Anúncios

2 thoughts on “A doença ataca de novo”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s